Tuesday, 6 October 2009

rua deserta

Ela seguiu a princípio em linha reta, forca do HáBITO. Distraiu-se no segundo que bastou pra que ela, então, pisasse em falso. Imaginou um palavrão bem grande e chegou a ensaiá-lo com os lábios, sem que da boca saísse som algum - ou um riso abafado, que ecoou ligeiro. Encabulou-se, em vão. O eco surdo revelara a presença absoluta do silêncio. De repente pareceu-lhe que era ela a única que até então se movia naquele lugar. Com delicada reverência, parou. Os olhos passeavam pelas janelas, passeios e asfalto. Onde estariam todos? Foi o vento, perspicaz,que lhe assegurou que pelo menos ela estava ali. Atravessou o silêncio a fio, sem de todo se desfazer dele, formando, assim, uma sinfonia de sutilezas. De leve, se apoiou em suas costas, fazendo com que retomasse o passo. Ela continuou. Olhou demoradamente para os dois lados para se certificar. Os primeiros passos foram precavidos, os seguintes, hesitantes. No meio da rua, suas pernas não mais lhe ouviam. Parou. Ela começou a rir alto, como se demarcasse território. Ria, e com as mãos aos pés do ouvido, recebia de volta do vazio o som rasgado da própria gargalhada. Agora, emitia sons desgrenhados, talvez doentios. Esses últimos, sôfregos, misturados a uma espécie de choro que depois se confundia também com os risos de antes. Livre, ela percebeu que não sofreria retaliacoes. Não precisaria temer humilhaçoes nem os dedos em riste voltados pros seus ombros obedientes. [.] Ela entendeu, finalmente, que estava irremediavelmente .

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