Sunday, 13 December 2009

Pulou do parapeito da janela onde estava sentado e correu, subindo o morro até o topo. Não havia nada a não ser o verde e a neblina, sol embaçado. Ele, menino, sorria dos cabelos dos braços e pernas se arrepiando de frio. Sentiu nas pontas do dedo o orvalho no mato comprido que lhe batia abaixo do joelho. Respirou fundo pra se envolver daquele cheiro de manhã. Quis pegar o cavalo e correr pela paisagem, vento soprando forte no rosto. Ficou ali, por um bom tempo, sem criar coragem de descer a serra e despear o animal. E pensando nessas coisas boas e soltas, não percebeu que, perto, a voz de alguém lhe chamava. Voltou-se na direção da casa e a cada passo em descida, era um pedaço do rosto que se enegrecia. E se lhe perguntassem, ele diria que algo dele se esvaia quando o dia de fato chegava. Coisa preciosa, tangível apenas ou quase, em momentos longe. Se pudesse escolher um nome, seria liberdade. E a única coisa que, durante o dia, lhe trazia de novo esses ares de começo, de um espaço tão grande que não cabe, nele, nenhuma constrição, era o sorriso daquela criança por quem agora tinha afeto de pai. Eram aqueles olhinhos desavisados se encantando com toda e qualquer faceta do mundo, de perguntas tão doces, que era com sorriso nos lábios que a deixava sem respostas porque, de fato, não sabia delas. Ela lhe devolvia o sorriso nem um pouco desapontado daqueles que sabem que são as perguntas que nos fazem existir. Com alegria, fazia outra, outra e mais outra, nem esperando mais por nada além de um sorriso, balançando os braçinhos e entoando a voz naquela cadência que pontua a fala com uma interrogação, uma surpresa, uma travessura. Sim, ela tinha cheiro, ele nao sabia? Aquela voz do gravador, veja so, era dela mesmo, como pode? E como e que tinha jeito de olhar as horas num relógio sem número?...Ele sorria e se pudesse, esticava pro dia afora o som daquela voz, pra levar consigo a alegria fresca que aquela meninice lhe causava. Era como se de novo pudesse descobrir as coisas, com um olhar que nao era o seu. E o mundo, assim, com olhares de Ana, era bom.

Friday, 20 November 2009

Ja faz muito que vive como quem nao esta. O corpo, indistinto, acompanha cotidianamente as ditas vicissitudes envoltas em fragil veu, pretensamente arbitrario. Perambula nos entre-vens da vida e num respeitoso esforco tenta, no vislumbre de uma cena qualquer, apanhar o repouso dos que se reconhecem nessas teias, trocas, nesses tratos. Em silencio. Porque as coisas, intumescidas e cada vez mais, causam danos quando ditas de um jeito que se pode entender, dira quando nao se pode. E como nao cabia ali persuadir, ansiava pelo dia em que, de fato, comecasse a fazer do agora sua casa e que pudesse, finalmente, aceitar que do homem, era aquele homem ali que podia ser. E eram aquelas palavras, alegrias, tristezas ou encanto, prescritos, que lhe aguardavam, em cores prontas, todos os dias da vida que dizia sua.

Monday, 9 November 2009

Não achava aquilo injusto, porque já nao lhe fazia sentido a justiça. E se, por ventura, fez uso de armas letais, foi porque a circunstância assim pediu, da mesma forma que, se vivia, era apenas porque não estava morto. Seu presente era seu único "porque" e era com simples, subserviente resignação, que atendia às demandas de um corpo que come, dorme, trabalha. Amou como quem vai à missa aos Domingos. Por conveniência, também, tratou de ser feliz.
Sua morte virou caso. Esquecido de propósito, pro mundo poder continuar.
Da janela do seu quarto, os girassóis de hoje amanheceram exatamente como se fosse ontem.

Friday, 6 November 2009

Esse contato, não falamos disso antes? Lugar das diferenças numa simbiose da qual nasce um terceiro, quarto ou milésimo elemento, sem nome, nem categoria prévia. Idiossincrasias que não caberiam aqui, mas estão. Sorrateiras que são, invadindo sem alarde, sem confronto: caos harmonioso.

E o homem efêmero que não gosta de "nuncas" deposita naquele vindouro a esperança de um fim universal. Mirando novas utopias, legitima uma tarefa que criou de si para si mesmo: a de colocar os pingos nos is de um texto transmutável que não se encerra. Nunca.
OTHER MIXED BACKGROUND.
http://www.enovacion.com/music/Kaiowas.mp3

Wednesday, 4 November 2009

Ultimamente tem sido como me enfiar guelas abaixo.

Thursday, 29 October 2009

Conversa de cozinha (inspirado na Leca)

Escrevo como vivo, com o desleixo de quem nao sabe. Bonitinha essa minha inocência de tentar. De longe, percebo aliviada que ainda sou muito jovem. Portanto me conformo quando, ao contrário de voce, perco muito na releitura (mas se ao menos ganhasse alguma coisa na leitura!): aposentar palavras cansadas, um dicionário de estilo(!), regrinhas pra seguir, livros que falam de mim, pra plagear. E aprender a pontuar, meu Deus...
Enquanto houver zero comments, me permito.

Monday, 26 October 2009

Lendo sobre Focault...

De que adianta estar triste se amanha é o outro dia? Pegar a loucura com as mãos e analisá-la, contra a luz, de todos os ângulos. Escolher, então, o que se convencionou chamar razão, por pura preguiça de sofrer. Sentir falta pra sempre, tendo ou não tendo, sendo ou não sendo - não importa. Descobrir todo dia mais uma de mim, velha estranha. Escrever interrogação onde antes tinha ponto final. Passos maiores que as pernas. Asas. (?). Escondi-as aqui, no silêncio que aprendi desde cedo. Estou ocupada, não ? Carregando os troféus de latão que me justificam. Me coloca contra a luz, pra te ver melhor. Eu sou facinha, me entende? Sou pequena e preciso agora que me de a mão pra mais esse e todos os outros dias. Obrigada.

Tuesday, 20 October 2009

(Depois de ler sobre Ana Cristina Cesar)

Quem lhe pediu as entrelinhas - eu quero o corpo inteiro. Debruça-se aqui: não literatura. Um pulso e um desejo que não sabe cavalgar. é tarde, as vezes demais. Inclina-se aqui: nada pra alimentar seu vício. O que são sapatos antigos que calço como se fossem meus - eu, que prefiro andar com os pés no chão. Vasculho nos vultos o rosto conhecido de alguém que nunca vi. Pobre pobre, criatura. Esta sentindo a superfície? Toca, mão monótona. Dita, mão covarde. Repete.

Sunday, 18 October 2009

Blogs de literatura

Vai, esconde a besta atrás das suas estantes
camufla-a com a poeira que vem desses títulos
bota seus diplomas debaixo do braço
Anda homem!
limp
a o sangue da carne que rasga
com esses seus dentinhos civilizados
está escorrendo, homem, aí no canto da boca
Manca homem!
coloca seu salto
endireita sua coluna forjada
é de nostalgia que essa imagem distorcida te alimenta
Distancia-se homem!
que palavra vai inventar agora
pra dar conta do que procura
Esqueceu-se Homem?
então escreve
vai, mais uma linha
um livro pra dar de comer

Vigia-te homem!

Wednesday, 14 October 2009

pensando em Jesus...

Eu tento. Não é fácil ser seu semelhante. O que tenho diante de mim é um esboço mal feito de traços incertos, sem firmeza, nem continuidade. Nos espaços em que não consigo, por falta de força ou senso de direçao, é tua mão que caminha de uma ponta a outra, ligando, dando forma, fazendo de mim uma coisa muito melhor do que, sozinha, eu sou. Porque também teve que fazer milagres, quando a palavra não bastou. E deu a outra face, sangrando. A cada minuto, eu tento.

Wednesday, 7 October 2009

as minhas criancas (oscilacoes...)

O espelho lhe contou
da beleza que ele viu
o seu peito estufou
convencida ela partiu

Acontece que notou
quando fora, a se mostrar
que a beleza que ela tinha
pareciam ignorar

Foi assim que então pensou
que de duas, vinha a ser
ou mentira deslavada
ou defeito de entender

Ou o espelho era burro
ardiloso, traidor
ou aquilo que ele via
era belo sem louvor

De que vale uma beleza
que ninguém pode notar
porque não se sabe bela
ou se deixa enganar

Não pergunte, sou espelho
sirvo pra revelar
é teu olho que encontra
aquilo que quer achar

Tuesday, 6 October 2009

rua deserta

Ela seguiu a princípio em linha reta, forca do HáBITO. Distraiu-se no segundo que bastou pra que ela, então, pisasse em falso. Imaginou um palavrão bem grande e chegou a ensaiá-lo com os lábios, sem que da boca saísse som algum - ou um riso abafado, que ecoou ligeiro. Encabulou-se, em vão. O eco surdo revelara a presença absoluta do silêncio. De repente pareceu-lhe que era ela a única que até então se movia naquele lugar. Com delicada reverência, parou. Os olhos passeavam pelas janelas, passeios e asfalto. Onde estariam todos? Foi o vento, perspicaz,que lhe assegurou que pelo menos ela estava ali. Atravessou o silêncio a fio, sem de todo se desfazer dele, formando, assim, uma sinfonia de sutilezas. De leve, se apoiou em suas costas, fazendo com que retomasse o passo. Ela continuou. Olhou demoradamente para os dois lados para se certificar. Os primeiros passos foram precavidos, os seguintes, hesitantes. No meio da rua, suas pernas não mais lhe ouviam. Parou. Ela começou a rir alto, como se demarcasse território. Ria, e com as mãos aos pés do ouvido, recebia de volta do vazio o som rasgado da própria gargalhada. Agora, emitia sons desgrenhados, talvez doentios. Esses últimos, sôfregos, misturados a uma espécie de choro que depois se confundia também com os risos de antes. Livre, ela percebeu que não sofreria retaliacoes. Não precisaria temer humilhaçoes nem os dedos em riste voltados pros seus ombros obedientes. [.] Ela entendeu, finalmente, que estava irremediavelmente .
A chuva se lembrou de mim e eu, sensivelmente renovada busquei, criança, as cócegas que ela me fez no rosto. O cinza do meu dia, hoje logo cedo, foi tudo que pedi a Deus. Acordei como pronta e vou dormir agora, trapinho feliz.

Monday, 5 October 2009

!!!

Thursday, 1 October 2009

Sobre todas as coisas (em Brasilia)

  1. PEDRO

    Pedro sentou-se na pedra com o cotovelo sobre a coxa, a mão escorada no rosto, segurando a cabeça pendida pro lado. Olhou pro chão procurando coisas pequenas que lhe pudessem distrair o pensamento porque a cabeça já começava a doer de novo. Achou uma formiga de cor esquisita que tentava sozinha carregar um cisco de qualquer coisa duas vezes maior que ela do chão. Ficou ainda mais triste por causa daquilo. Um bicho que existe pra comer. Pior é que existia sem nem saber que existe. Existir não lhe significava coisa alguma. Sentiu pena e quis olhar pra cima. Por uns segundos ainda via a formiga no fundo azulão. O sol estava forte e o céu quase sem nuvens. Lembrou da moça morena, Ana o nome dela, falando que porco não olha pro céu porque o pescoço dele não dobra. Coitado. Além de não saber que existe, não sabe que existe o céu. Não vê a chuva nascer, nem o sol, nuvem, lua, estrela, nada. Conhece só o depois do que vem de cima, como o pingo que espirra da chuva quando cai no chão ou o sol queimando o seu couro enquanto enfia o focinho na lavagem, e come. Sente sem saber a causa. E nem quer saber, porque não sabe que não sabe... Imaginou um chiqueiro com todos os porcos virados com os quatro tocos de pernas pra cima, olhando pro céu e fazendo aquela algazarra de gritaria, como quando vão ser mortos. Bicho resignado. Bicho sem porque, nem para. Engraçado é que ele grita, de medo. Medo puro. Pedro ficou pensando qual era a parte de si que não dobrava e do tanto de coisa que deixava de saber por causa disso. Achou aquilo tudo besteira depois, porque entendeu que nada tinha de resignação naquele bicho. Pra quê ficar buscando no céu o que o chão lhe dava, se era só disso que precisava. Coitado era ele que entendia que existia, entendia que não sabia, e ainda assim não conseguia saber o que é que estava buscando. E se era o homem que dava sentido ao porco, Pedro viu que nisso, ele e o porco, ele e a galinha, ele e a formiga, eram iguaizinhos. Sozinho, assim, também não tinha nem porque, nem para. Foi por isso que, naquela tarde, ele saiu da beirada do rio. Pra falar com ela. Não aquela fala desértica de sempre. Queria que da sua boca brotasse alguma coisa. Alguma coisa pra encantar Helena.

    HELENA

    Como não tinha outro jeito, Helena imaginava. Hoje, enquanto apanhava jabuticaba do pé pra geléia da mãe. Já tinha ensacado todas as dos galhos baixos e as do tronco do meio, as que não exigiam muito esforço. Agora teria que subir na árvore se quisesse mais. Largou o saco no chão, largou também o pensamento que tinha na cabeça, e sem cerimônia levantou a perna o mais alto que pôde. Agarranchou o pé num buraco qualquer da árvore, segurou um dos galhos com um braço, com o outro apoiou seu peso no tronco e deu o impulso pra levar o corpo pra cima. Como não via ninguém, nem se importou com o vestido que agora já não cobria nada. Ajeitou-se e achou que de pé dava mais jeito de apanhar a fruta. De pé, viu do outro lado da cerca que Pedro estava sentado na beirada do rio de novo. Tava com a cabeça pendida pro lado, olhando ora pro chão, hora mais demorada pro céu. Parecia triste. Sentiu pena dele. Helena achava Pedro estranho. Quieto demais. De vez em quando surpreendia o olhar dele em cima dela, antes que ele tivesse tempo de desviá-lo. A cara que fazia depois não deixava ela saber ao certo o que é que ele queria dizer com aquilo. Ficava quieto. Não corava. Abaixava a cabeça e saía sem dizer um ai. Bicho resignado. Se fosse Helena, dizia. Dizia logo o que queria e o que não queria. Ela, que não tinha medo de palavra nenhuma. Nem de dita nem de ouvida. Engraçado que ela tinha medo de porco, de galinha, até de formiga, mas de palavra, não. Também não tinha medo de subir em árvore, nem de Quinho, que todo mundo morria de medo, só porque era grande. E porque ficava bravo quando não comia. Não foi uma nem duas vezes que ela se machucou enquanto brincava com o bicho que não sabia do tamanho da própria força e jogava Helena no chão. Desconcertado o bicho ia tentar desmanchar o mal feito alisando Helena, sem saber que agora era sua unha que arranhava a cara dela. Doía, mas Helena não conseguia parar de rir da bobice do cachorro, que tentando dizer do jeito dele que gostava dela, acabava machucando-a mais e mais, até se cansar. O danado gostava mesmo era da mãe, porque era ela, todo dia, que se lembrava de botar comida pra ele. Outra doidice de Helena era ficar dizendo uma mesma palavra várias vezes, até o som dela assim, repetidamente, perder o sentido. Chegava quase a esquecer de verdade o seu significado primeiro e tinha que parti-la de novo, devagar, fazendo força pra lembrar o que estava dizendo. Mas Pedro era mudo. Se não fosse fazia que era. Ela até gostava disso porque Pedro lhe lembrava ela, quando afundada no pensamento, esquecida de falar com o povo da casa. Coisa de quem tinha história na cabeça. Só percebia que tinha se feito muda quando alguém perguntava por que é que ela tava sorrindo. De resposta, ela tirava o olhar do nada e fitava o dono da pergunta, sorrindo de novo. Viu quando Pedro se levantou. Ficou olhando ele se afastar e tentando descobrir no ritmo do passo, no balanço dos braços e no onde dos olhos dele, qual era a história que Pedro estava imaginando. Ela quis gritar o nome dele e esconder atrás da folhagem. Achou aquilo de se esconder besteira e decidiu só chamar por ele. Mas ele não ouviu.

    A MÃE

    A mãe tinha nome, e era Joana. Nome escolhido pra combinar com Ana, Viviana, Eliana, Diana, Mariana. Ela até que gostava porque tinha ouvido em algum lugar, uma vez, que Joana era nome de guerreira. Guerreira pra ela era gente que luta, luta de vida mesmo. Luta de levantar cedo, plantar, lavar, passar, cozinhar, limpar, costurar, entender, essas coisas de mãe. E de esposa. Parecia até que já tinha nascido assim porque não se lembrava dela de outro jeito. Às vezes, quando olhava pra Helena, tinha a impressão de se ver em relances. Mais nos traços que nos modos, porque Helena era menina de vento, como o pai dela dizia meio contrariado. Helena não dava pra dizer numa palavra. Joana gostava do olhar de Helena contra a luz que batia no vidro da janela, a de cima da pia, quando depois do almoço ela ia lavar as vasilhas, cantando. Helena sentava no chão e cantava com ela, mexendo num trapo qualquer, observando. Era amor que Joana via na filha. Cantava mais alto quando Helena estava por perto. Cantava até esquecer que era mãe, que Helena era filha, cantava até esquecer. Outra hora perdia a paciência quando via que Helena não estava ali. Depois, o que sentia era medo mesmo. Tinha vontade de sacudir a filha pelos ombros com violência e dizer com a voz doce pra ela descer, de onde é que estivesse, e colocar os pés no chão. Como não era assim de rompantes, ela dizia - Helena! - e Helena parava de fazer o que é que fosse e vinha ajudar a mãe. Perguntava o que é que precisava picar, o que é que precisava limpar, onde é que a mãe queria que botasse isso ou aquilo. Hoje Joana mandou ela apanhar jabuticaba pra fazer uma geléia que José gostava. Ele comia tudo, sem nem erguer o pescoço, olhando pra dentro do pote. Levantava, resmungava qualquer coisa e saía. Joana às vezes desconfiava que José já não gostava muito da vida. Mas não tinha medo dele querer dar fim de nada, porque no fundo sabia que ele era só bom demais. Por isso ontem fazia galinha, hoje geléia, amanhã qualquer outra coisa de que ele gostasse. Ela fazia de um tudo. Que era grato Joana também sabia porque ele sempre comia com gosto. De noite, dormia de costas pra ela. De manhã, mal mal dizia um bom dia. Joana não esperava obrigado, nem beijo, nem nada dessas coisas. Não era de nhenhenhém, ou já estava acostumada com o jeito do marido mesmo. Pra ela era de bom tamanho que ele voltasse sempre. E que, de vez em quando, olhasse pra ela no meio da noite, achando que ela dormia. Às vezes ele falava, falava de Helena. Menos que quando começaram a dizer que ela não regulava das idéias. Como se já tivesse se conformado que ela não batesse mesmo e que, ninguém, nunca, fosse querer a filha. Joana não achava a idéia de todo ruim. José ficava fora o dia inteiro, Helena lhe fazia companhia. Antes tinha a Mariana. E era assim mesmo. Não conseguia controlar. Toda vez que se lembrava da doidice de Helena, se lembrava de Mariana. Porque Mariana decidiu tirar a vida na frente de Helena. José achava que isso era que tinha destrambelhado a menina. Foi numa tarde parecida com essa de hoje, Mariana quase da idade de Helena, menos menina, subiu no quarto de José e pegou a arma, sem fazer barulho algum. O barulhão só veio depois, primeiro o do disparo, depois o do choro de Helena. José subiu correndo as escadas, Joana saiu do choque tão rápido que nem parece que entrou nele. Quando chegou no quarto José olhava pela janela, olhava lá pro lado da serra, com Helena ainda chorando no colo, toda suja de sangue. Mariana e sua cabeça esfacelada no chão, morta, sem nem um pingo de dúvida. Joana nervosa, com o sangue em todos os cantos do quarto, com José e Helena, que agora era quem parecia que tava cuidando do pai, com a mãozinha suja de sangue no rosto dele, chamando José daquela distância e querendo lhe tirar o peso do olho, o mesmo que parece que carrega até hoje. Joana pegou a irmã no colo e desceu com ela. Joana lavou Mariana e agora já podia chorar e perguntar pra irmã morta o que é que tinha acontecido, como se Mariana já não lhe tivesse deixado saber tantas vezes. Foi bom Helena ter gritado, porque Joana não queria lembrar daquilo. Mas o que é que essa menina tava arrumando agora, chamando Pedro de cima da árvore?

    JOSÉ

    José caminhava com passos cansados, meio chutando as pedras de terra vermelha que encontrava na trilha pra casa. Tinha matado um tatu grande que lhe pesava no braço, não mais que a cabeça, pra comida da noite. Pensar nisso agora lhe embrulhava o estômago porque não sentia um nada de fome. O chapéu largo o escondia do sol e da luz forte que vinha dele. Mesmo assim o pescoço ardia mais do que o de costume. Deve ser por causa daquela hora que ficou sentado debaixo de sombra nenhuma, limpando o bico da arma que matou Mariana. A mulher não gostava que ele usasse aquela arma até hoje. Dizia que tinha coisa que era melhor enterrar junto com os mortos. Que era melhor ele sabia, mas se Joana lhe dissesse como, era de mais valia. Ele não tava falando de cavar um buraco e meter a arma dentro. Ele tava falando de parar de sentir aquilo toda vez que olhava pra mulher, pra Helena, pra arma e pra sua cara carrancuda no espelho. Todo dia era isso. Era ver Joana e lembrar de Diana, a irmã que era quem devia ser sua esposa, se não tivesse ficado doente. Porque Joana parecia com ela, o cabelo preto escorrido, aquela bochecha cavada no rosto e o olho grande, preto. O de Diana, cheio de rancor pra cima dele, como se ele tivesse culpa do inverno ter sido rigoroso daquele tanto naquele ano. Se ela soubesse que pra ele tanto fazia uma ou outra ia ter morrido com menos desassossego. Gostava de uma o mesmo pouco que gostava da outra. Certo que Joana era mais bonita, mas disso também ele não tinha culpa. Mas o problema de José é que ele sabe que a história não foi bem assim e que pouco antes de Diana morrer, já tinha começado a olhar pra Joana de outro jeito. É que nos olhos pretos de Joana ele não via amargura, ele não via rancor, nem cobrança. Joana aceitava tudo. A irmã morrendo porque estendeu roupa na friagem da noite. Ele, José, seu marido, assim, do ir embora da lua pro levante do sol, como se a terra girasse só pra isso mesmo, pra dar vez pra um outro que não teve a sua. Engraçado é que o que gostava na mulher era também o que tinha uma birra sem tamanho. Bicho resignado essa mulher. Uma mulher pra quem tudo tanto faz. Nem na hora da morte da irmã mais nova, morte feia, coisa trágica, Joana trepidou. Foi ela quem carregou o corpo. Foi ela quem lavou aquele sangue todo, que pra ele lhe custava caber nas vistas, com aqueles mesmos olhos pretos de sempre, aquelas mãos firmes, escorregando no cabelo da Mariana, junto com tudo quanto á que tinha saído de dentro da cabeça dela. Ficou olhando pra janela pra não ter que ver aquilo e também, não se pode esquecer, por causa da culpa. Desde que Mariana se mudou pra morar com ele e Joana, desde aquela época, ele tinha medo do que pudesse acontecer. Mas deixar a menina sem pai, nem mãe, no meio daquela roça perdida, isso nem ele queria, nem Joana ia deixar. Joana tinha uma coisa com aquela irmã dela. Parecia que era mais filha que irmã e queria que José lhe tivesse o mesmo apreço. Ora essa, José já tinha filha e o nome dela era Helena. Se fosse pra ter outro que fosse macho, e Joana sabia disso, apesar de nunca mais ter tocado nele. Enchia a menina de dengo, até parece que esquecia que a menina já era mais moça que menina. Disso Mariana não deixava ele esquecer. Ficava olhando pra ele com aquele olho preto, quase como os de Joana. E ele só olhava pra eles de volta, só olhava porque ficava tentanto descobrir o que é que tinha naquele pretume que era diferente do que ele via no olho da mulher. Tinha uma leveza quando ela olhava pra ele, tinha também um medo tão profundo que José não sabia se era ela ou ele que tava sentindo aquilo. Ele não gostava de ficar perto quando a menina estava. Preferia ficar no quarto, com Helena, longe da secura de Joana, longe daquele abismo de Mariana. Joana dizia que a menina já se queixava achando que José não gostava que ela tivesse ido morar lá, que ia se embora, que agora José já não falava com ninguém. Joana riu quando José mandou ela dar a Mariana o que fazer, ele lembra porque, nessa hora, ele achou que viu alguma coisa de diferente nos olhos de Joana, e riu também. Tá certo que depois ficou com dó da menina e pediu Joana pra fazer pra ela um vestido com um pano que trouxe da cidade, de presente de aniversário. Joana fez com muito gosto e porque era o mesmo que ela usava no dia em que se tirou a vida, José ficou ainda mais ressentido. Tinha pena da menina que já não tinha pai e queria pensar que era esse o bem querer que via nos olhos dela. Isso lhe tirava um pouco daquele peso que ele carregava desde o dia que Mariana decidiu que não queria mais esse mundo. José não entendia como uma menina ainda, daquele jeito, não podia achar na vida nada mais que lhe servisse de desculpa, que olhasse pro lado e visse só um cano de arma luzindo, pegasse aquilo e botasse bem na cabeça, pesado como aquilo era, e puxasse o gatilho, como se tivesse apertando um botão de luz. E ficava nervoso quando pensava que Mariana escolheu fazer aquilo na frente dos olhos de Helena. Se lhe deixasse só o sorriso, a doçura, mas não. Destrambelhou com a cabeça da menina que ficou foi mexendo naquela esfacelera toda de sangue e de restos antes dele chegar no quarto. Agora ficava aí desse jeito de vento, que ninguém dá conta. Porque pra José, pior do que um amor seco, é esse olhar perdido de Helena, que nem sabe que é perdido. O tatu já tinha dobrado de peso no braço quando José decidiu sentar um pouco na pedra pra descansar o pensamento. Viu alguém andando na sua direção e era Pedro, que vinha como ele, catando as pedras do chão. Pedro meio se assustou quando viu José ali e foi quase num impulso que perguntou se lhe era de alguma serventia. José mal teve tempo de pensar se Pedro lhe tinha ou não serventia e o rapaz já tinha tomado o tatu dele. José notou contrariado que o peso do bicho diminuiu nos braços do rapaz. Arte do tempo que já tinha dado a sua força de outras épocas praquele moleque, já nem tão moleque assim. Os dois homens foram, caminhando assim, em silêncio, na direção da casa de José.

    ZEFIRA

    Zefira conta, com aqueles seus dentinhos miúdos de gente faceira e olho que aperta de propósito, que foi a coisa mais esquisita do mundo. Dessas histórias que quando a gente conta, mesmo que com firula, espichando daqui e dali, não chega nem perto de como aconteceu de verdade, porque essas coisas nunca acontecem num tempo que dá pra contar. Ela tinha que escolher se falava do olho melado de Dona Joana em cima de Seu José primeiro, se contava de Quinho dando a última estribuchada no chão, se falava da boca do menino Pedro que, por milagre de Deus, chamava por Helena que vinha correndo, de lá do outro lado, quando na verdade tudo, sem falar do céu de fim de tarde, do sangue respingando na roupa que esvoaçava no varal, da poeira que subiu do encontro das patas do bicho com o chão, na hora do pulo - tudo aconteceu junto, na mesma hora, que só vendo. Como todo meio de semana, tava ela lá com a barriga colada no tanque, lavando a roupa da casa. Tinha visto quando a desantarantada da Helena com o vestido todo pra cima, ainda se ajeitando, ficou berrando o nome do menino do Seu João, que devia estar carregando o peso do mundo nas costas lá pro lado do rio, moleque esquisito. Dona Joana veio da janela mandar a menina tomar modo e tratar de por a comida do bicho que já tava rosnando de fome porque até agora nenhum filho de Deus tinha se lembrado dele. Foi só o tempo de torcer mais um par de roupa e um lençol e Seu José chegou com o menino do Seu Jõao, o tal do Pedro, segurando o tatu. Mas foi tiro e queda. Quinho de onde tava deu um pulo pra cima do menino, Seu José que mal tinha voltado as costas pro portão que acabava de fechar empunhou a arma numa velocidade que só deu tempo de ver ele xingando tudo quanto é nome, de susto e de raiva de ter apertado o gatilho, mas isso quase ao mesmo tempo de ter apertado o gatilho. Caiu arma, Pedro, tatu, bicho, tudo no chão. O bicho, coitado, que só queria comer o tatu, caiu estatelado, com os quatro tocos de pé pra cima, olhando pro céu. Helena que naquele dia não tirava o nome de Pedro da boca só teve tempo de dizê-lo mais uma vez antes de se esborrachar no chão. Voou jabuticaba pra todo lado e deve ter voado meio mundo de panela pra cima lá na cozinha também, porque Dona Joana veio numa correria doida. Não viu arma, nem Pedro, nem cachorro, nem Helena. Foi logo tateando Seu José em tudo quanto é canto dele. O homem se tremia todo, Zefira não achou que fosse de susto, e se deixou cuidar, olhando pra Joana e, Zefira não tinha certeza porque tava de longe, mas parece que Seu José sorria de canto de boca. Helena numa altura dessas já tinha se levantado do chão com os joelhos e mãos esfolados da queda e corrido pra cima de Pedro, que tinha dado um grito mais alto do que grito de porco que tá pra morrer, de medo puro. Deu a mão pra a ajudar o rapaz a se levantar, se esquecendo, coitada, da finurinha das próprias pernas. Não deu outra e caiu de novo, de joelho, e ficou engraçado porque não dava pra saber quem tava dando a mão pra quem. Ficaram assim um bom tempo, olhando um pra cara do outro, até depois que Dona Joana e Seu José já tinham entrado pra dentro de casa, pra onde depois entraram também. O bicho, coitado, ficou lá no chão com o tiro no meio da fuça. Claro, Zefira sabia que ia sobrar pra ela, porque bicho morto não lhe era novidade. Quando não era cachorro, era porco, era vaca, era galinha, era tatu. Dona Joana mandou cavar uma vala do lado de trás da casa, perto da cerca pra tacar dentro o bicho com arma e tudo. Uma arma boa daquelas que dava até dó, porque Raimundinho podia caçar com ela. Besteira de Dona Joana mandar se defazer da arma, como se uma coisa que não presta pra um não prestasse pra outro. Resignada, Zefira enterrou o que lhe cabia. Voltou pra se lavar do sangue e da terra vermelhos. Sentiu mais pena do bicho do que imaginava que pudesse. Deu vontade de olhar pro céu, como se precisasse entender o que tinha acontecido ali. Encontrou um céu grande demais, de dar medo. Mesmo assim ainda ficou olhando pra cima por mais um tempo. Zefira suspirou, baixou a cabeça e apanhou o tatu que ninguém da casa queria mais comer. Hoje, ela ia ter janta.

Cronica publicada Brazilian News


Essa coisa de quantificar tudo acaba reduzindo a gente. Suponho que não seja disso que Bob Dylan fala com tantos "how manies" na sua canção, mas o que quero dizer e que acredito que temos uma forma desastrada (desastrosa?) de lidar com o tempo, tentando coloca-lo em nossos relógios e agendas. A gente usa tempo, a gente diz que o tem ou que nao o tem, e com a autoridade dos que não perdem tempo o chamamos ate de dinheiro. Nunca soubemos mesmo lidar com a nossa condição finita e acabamos enfiando guela abaixo tudo que alguém um dia disse que significava "aproveitar a vida". Gasta-la ao máximo e depois jogar o bagaço fora, chupar ate o caroço e nesse caso, guarda-lo, porque ele eh a prova da historia que vai ser contada pros netinhos no final, se eles tiverem tempo de ouvir, claro. O final, alias, também eh jeito de entender o tempo, que a gente não sabe se termina de fato, ou se começa de novo, enfim.
Observar o uso que se faz da internet eh uma forma interessante de analisar como se constroi hoje essa nossa relação com o tempo. Outro dia mesmo, assistindo a televisão, alguém falou de um tal de twitter, alguma coisa de carater pessoal, que as pessoas, inclusive famosas, tinham. Logo depois li umas linhas sobre o nascimento de uma nova forma de revolução, de protesto através internet e lah estava o twitter de novo - eu me lembro que, com aquela resistência dos obsoletos do século XXI, eu pensava alguma coisa do tipo "lah vem mais uma". Quando decidi entender o que era isso, constatei que o negocio não vinha coisa nenhuma, ja tinha vindo, e ja estava sendo avidamente usado por milhares de pessoas no mundo inteiro, dando inclusive pano pra muitas mangas. Tive que concordar com alguem que disse que eh assim que a gente percebe que se esta ficando velho, quando o tempo comeca a correr demais pra ser assimilado por nos (e quando se contenta em usar apenas 20% dos recursos do nosso celular...).Confesso que ainda não assimilei o twitter, talvez porque o alimento que eu tenho vai matar o bichinho de infecção e tédio.
Mas o negocio parece mesmo ser bom porque, alem de poder fomentar revolucoes cibernéticas, através dele fico sabendo, por exemplo, que a mariazinha cortou o cabelo igual a Lady GaGa, que o joazinho esta em Londres, que a cor preferida de fulano eh azul, que beltrano quebrou o carro, que sicrano esta viciado em jogos de internet, ou seja, que todo mundo esta aproveitando muito bem a vida e nos mantendo informados sobre isso.
E penso que tudo isso deve ser bom, realmente. Deve ser bom porque são esses espaços de my spaces(!), de twitters, orkuts, facebooks, emails, blogs que acabam escancarando sem pudor essa nossa carência de existir e de sermos vistos por quem quer que seja. São esses espaços que nos salvam quando jah não há tempo no nosso mundinho real pra sermos o que somos - para sermos sobretudo. E ainda que nos ouçam apenas os mosquitos e fantasmas, eh sempre bom reconhecer as nossas fraquezas, no melhor sentido da palavra. E bom reconhecer que, no final,todos nos precisamos de show off.

Wednesday, 30 September 2009

Corro risco quando escrevo porque não posso desdizer as coisas e fingir que não era bem isso, nem resgatar as palavras que um dia me carregaram nua, pra receber de volta um pacote bem educado de respostas de qualquer um. Aqui tenho tempo, e posso, livre. Não me preocupam os esboços de gestos, nem meus sorrisos de todo dia, costurados com silêncio. Não me preocupa a pobre sintonia do meu pensamento com meu corpo, da qual resultam caricaturas tristes, choro que se engole com dor disfarçada na lisura da face. Sem visitas, eu passeio pelo espaço dedilhando meus mais puros non senses. Espero.

Thursday, 24 September 2009

O cinismo faz parte, eu sei, mas devia ser somente do tamanho necessário pra tornar a leitura possível, sem causar muita dor. Coisa inventada é bom quando a gente estica o músculo pra dar conta de ver direito. O resto é vaidade.

Sunday, 20 September 2009

um sonho

No inicio havia rostos conhecidos e felizes. Eu tentava agarrar o momento através de uma fotografia que parecia não dar certo, ora porque perdia o foco, ora porque não conseguia o enquadramento ideal. Depois havia uma rocha grande a uma boa distancia, encostada no mar, e algumas varias pessoas nela. Eram crianças e pessoas mais velhas, adultos. Todos pareciam ter a pele escura, mais para dizer que eram povos antigos e primeiros do que pra serem negros. Todos riam muito,felizes, e parecia que o fato de estarem ali, naquela rocha, era que os fazia serem o que eram. Carregavam nos sorrisos um orgulho estranho. Eles cresciam em números de tal modo que, por um momento, pela lente da camera, tive a sensação de ver um aglomerado de formigas correndo muito atarantadas em todas as direcoes, batendo cabeças e se fundindo num mar de pinche. A cena se desenrolava, assim, hipnótica, o mar fazendo-se e desfazendo-se ritmicamente, ora e outra voltando as formigas a serem gente e crianças, num fogo agitado, de dentes brancos e arreganhados a sua graça própria. Eu desesperadamente buscava, com minha camera na mão, o melhor ângulo. Mistura de asco e encanto. Mas o fato eh que havia movimento demais, sem contar o barco que passou bem em frente da rocha, logo na hora da foto, e o vai e vem de pessoas andando na costa que me atrapalhavam a visão, sem me perceber ali. E quando finalmente parecia ter conseguido a imagem perfeita, o mar se abria de novo transbordando o enquadramento da minha lente, parecendo que a rocha aumentara, e com ela todos que estavam ali, em numero. O sentimento de frustracao logo dera lugar ao Extase. O que queria era ver com todos meus sentidos a postos e de modo cru, aquele acontecimento largo. Quando o horizonte se abria assim, pra mim, não havia qualquer espécie de impasse. Meu corpo era pura calmaria, muito certo de que estar ali era fundamento e era essência, mais forte que qualquer tentativa de revelação a quem, por circunstancia de tempo, de espaço, de língua ou estado de espírito, não pudesse, comigo, vivenciar. De repente um estrondo. A rocha lentamente parecia mudar de cor, como se desde sempre tivesse sido translúcida e, de dentro, alguma coisa de luz rosa começara a brilhar. Pessoas pulavam la de cima no mar de agua, algumas desesperadas, outras apenas prevendo o pior. Sem se importar com os outros que ainda ali esperavam por algum tipo de explicação, a rocha se partiu e dela jorrou um liquido em brasa, cor de fogo, fazendo um rastro em direcao ao mar e levando consigo o que estava no caminho. Senti uma onda de hálito quente, com gosto de castigo ou vingança, e triunfo. Fascinada, reassumi minha função que agora era documental, semelhante a de um fotografo que presencia desgraças e quer dividir seu horror com o mundo. Eu não sabia para onde direcionar a lente da camera e tirava fotos desesperadamente de todas as coisas. O tempo que eu tinha era pouco para, por exemplo, registrar a expressão sem nome daquele homem antes de correr pra pular no mar, e a daquela criança que, com surpreendente bravura, quebrava, com um martelo, pedaços da rocha do chão, pra que as outras três ali encurraladas pudessem sair. E a lava que desmanchava os corpos, e os outros que haviam mesmo antes dela, se entorpecido de susto, caindo no mar inertes. Por mais que se pudesse juntar todas aquelas fotos, como se montasse, assim, um quebra cabeça, eu sabia, não daria conta daquele momento. Mas eu continuava tirando fotos partidas, com uma espécie de teimosia ingénua, exatamente da mesma forma que continuo, sem saber quem me confiou essa camera, postando aqui esses textos, na esperança que nasce frustrada de deitar na palma da mão uma lasca de alguma coisa que se pareça com a EXPERIÊNCIA. Os jornais anunciavam a tragédia e o tom das noticias dava a entender que era sabido, desde muito tempo, que isso iria acontecer. E mesmo assim eles riam, atemporais. Mesmo assim, havia crianças. E não se sabe se tinham outra escolha. O fato eh que eles eram felizes ali. O fato e que eu também insisto, sabendo que de onde olho, sinto o calor no suor que enxugo da minha testa.

Monday, 14 September 2009

X os sub...


posso contar anos desde a ultima vez que escrevi um texto do tipo cronica porque acho que desaprendi a falar de coisas miúdas. E que meu olhar tem tido pressa e no final, la vou eu colocando tudo (que vejo, sinto, reflito sobre...) num mesmo e imenso saco. Andei vivendo, eh isso. Mal e porcamente, eu sei, mas o fato, confesso pra fins de catarse, e que estive mais ligada as coisas que se faz e menos aquelas que se pensa,com propriedade, digo. Pra completar, estava cansada... não, com estafa, dessas minhas palavras de sempre, como se qualquer coisa que supostamente nova fosse,na verdade,um "remake" sem graça de outra vivida, por uma quase mesma eu, com mudança de cenário e personagens, apenas.
O mais engraçado de tudo (pra mim) eh que a vontade deste texto nasceu de um sentimento ruim, coisa desses mal resolvidos assuntos de passado, coisas que nos colocam no nosso lugar (o de humanos), mostrando que ainda e sempre muito chão depois da próxima esquina. Entendi que deixar de ver as miudezas eh olhar de modo medíocre, e eh esse lugar pequeno de onde muito mais fácil entendo essa tal de metafisica. Então hoje, no caminho pro trabalho, fui buscando nos gestos, nas janelas e no peculiar dos passos de cada pessoa, um motivo pra este texto, ou um motivo pra mim, se preferir. E eis que, embora tenha visto coisas muito bonitas, sobre as quais se escreveram paginas e paginas de bons livros (ex: duas crianças - capacetes rosa - dentro de uma caixa azul, carregadas pelo pai na frente da bicicleta, lugar onde nos filmes se colocam cestos de flores!), no final das contas, o que me move, eu acabo de perceber, não e o olhar que eu empresto pras coisas, nem as palavras que eu vou escolher pra me misturar nelas. Percebe? Eu acho que o que eu tenho falado desde o inicio deste texto e disso: de sentir vontade. Pensando assim, me pergunto que momento foi esse que comecei a deixar a vontade se emudecer assim, de fininho, a ponto de eu esquecer a sua face essencial, e lhe digo, foram tantos...Foi quando bateu no meu rosto ansioso por calor e luz, aquele sol frio e melancólico dessas tardes; foram as duas horas de todos os dias que passei ali, apagando no rastro molhado das tábuas do chão detalhes importantes de uma identidade; foi essa banheira, tão sem porque de tão besta, que esconde a firmeza do chão dos meus pés desastrados, essa comida em , em pratos muito mal prontos, o casaco no varal que não seca nunca, o cheiro ruim que vem sem o menor pudor, da cadeira ao lado, essa agua grossa de tão potável, e os ratos. Foi aquela palavra que eu não entendi (porque ela não foi dita pra isso), aquele nariz torcido que ganhei da pessoa que me veste com uma roupa tosca, que eu não sou; eh a cidade que não sabe da minha historia e pede desculpas tão civilizadamente que me corta o gesto puro e a ternura que se aprende nos trópicos; essa cidade, que me aceita por debaixo dos panos enquanto me rouba a existência, esta, que agora ganha ares aqui, mesmo com a minha enorme e flagrante limitação. E isso: escrever e uma forma de existir. de haver por ai, outras formas. E o que humildemente acho eh que e preciso olhar com calma e persistentemente, de forma a resgatar, de onde eh que seja, esse sentimento de vontade esvaecido por uma condição inventada pra nos e que, lembremos e façamos questão disso, esta muito, muito longe de condizer com o nosso tamanho real.

Saturday, 12 September 2009

Felicidade agora eh coisa e nunca houve tantas condicoes.

Friday, 11 September 2009

segundo

O sobe e desce do peito. No rosto, sangue em brasa: epifania. Sonhos despencando de todos os lados. Nos braços caídos o peso desconcertante da ingenuidade (doi significar o que se diz e não se lida assim com palavras faz tempo, devia saber). Vontade de rasgar todas e devolver os gestos abruptos de outras horas. No caminho, a compania dos ecos e das sombras que desde longe sussurravam, pacientes, que a palavra que espera vai ter da tua boca.

Monday, 31 August 2009

O que viu na agua foi uma figura disforme. O primeiro impulso foi o de se agarrar a qualquer coisa essencialmente simples. Segurou aquela mão com forca e se deixou levar pra bem longe de si. Perguntou pra que escrevia? Disse que era pra tentar entender as coisas. Riu com toda a ironia que lhe foi possível. Pegou uma pagina, bocejou, largou de lado. E quando depois de olhar pro nada, como se meditasse, achou que fosse dizer, se levantou, comeu um doce e pediu pra ir embora. Lhe deu a mão, um pedaço do doce. Andaram calados. Seguiu com os olhos o cabelo azul do menino que passou ao lado. Quando chegaram, percebeu o movimento do seu corpo. Envolveu-lhe com seu braço e pediu calma. Deixou sua voz lhe abafar o pensamento. De novo, fugiu.

Holistica (depois de ver "Ponto de Mutacao"

Estava frio, o vento a espreita, atento ao momento certo. Uma cortina de nuvens brancas cobrindo todas as frestas azuis de céu, sobre a cabeça. Pedra ao redor dos pés. O vazio que constitui, que se toca, que se , e o vazio que separa os pés do chão, a mão do alimento, o corpo do resto. Tudo em potencia, tudo sob perspectiva. A cada passo, um quase movimento frustrado, possível. Apetite de mundo. Como? Se repetia pra si, ora pro Cosmos. A roupa agora dançava tocando o varal ao ritmo do vento que começara a soprar, tímido, por mais que o mundo fosse mundo. E daqui que eu vejo, e você não existe séculos, falou pra estrela(culpa de Einstein e sua teoria, não foi isso que ouviu aquele dia?). De novo, o sentido lhe pareceu desimportante, porque o movimento e dialetico sempre. De novo, os contrários extremos lhe pareceram exatamente iguais (não foi você que disse que via o chão trincado do sertão quando olhava pro céu?).Pra que? Foi quando decidiu calar.

Monday, 24 August 2009

do MEIO...Sentimento de "ninguendade" (depois de ler "O povo brasileiro")

"Não sou índia, não sou negra, não sou branca, não sou preta, não sou pobre, nem sou rica, não sou feia, nem bonita. Eu cozinho, eu comento, eu produzo, eu sustento, sou do lar e sou da rua, falo nobre e falo crua. Eu sou Kenya, sou começo, terra preta sim sinho, eu sou Silva, brasileira, da mistura, de labor. Sou também daquela terra, mar aberto, insensatez, trago sangue, trago historia, do Gonçalves português. Sou do sul, sou do leste, quase centro, logo ali. Sou de Minas, sou vizinha, esbarrando la e aqui.Geografia nariguda desenhada pro poente, numa busca de riqueza, que era ouro, que era gente. Sou de fora, sou de dentro, violão, samba e metal, ouvi tudo, sei de nada, e no final e tudo igual."

Saturday, 15 August 2009

Sobre "Quem me roubou de mim"

"Entendi então que minha subjetividade e' ameaçada toda vez que me perco da minha identidade, que 'e ela que me faz ser alguma coisa diferente de todo o resto. Mas você fala de identidade como se houvesse ai unidade pressuposta, me da o exemplo clássico de um mosaico, que 'e mosaico porque 'e múltiplo e uno, 'e parte e 'e todo. A minha dificuldade esta em organizar as minhas partes e dar a elas algum nível de hierarquia, porque elas são diversas demais pra ocupar o mesmo lugar em mim e ai, alias, não seriam partes. As partes são como minha identidade por vir. Mas um mosaico 'e um plano, um projeto de mundo que existe antes de começar. E eu não sei como mundificar tudo que eu sorvo. 'E caos, 'e imundo, e sou eu também. Suponho que o difícil e costurar tudo combinando cores, tons, tamanhos. O trabalho mais difícil 'e o de criar as linhas, de definir onde começam e onde terminam as partes. Nessa função 'e que me perco".
"Eu quis sentir a minha humanidade e ouvir os sons daquele instante. Ter a sensação de mim no mundo com e apesar de tudo. O sentimento foi de medo e solidão, medo de perder aquela vida tão maior que eu. Medo de não conseguir dar conta do correr do sangue nas minhas veias, como se eu não estivesse ainda ou nunca fosse estar pronta pra existir. Medo, também, de ser notada em minha fragilidade e não poder carregar meu corpo nesse mundo afora. Naquele momento eu quis a vida, assim mesmo, fazendo dela qualquer coisa que eu não sei. Porque tendo a vida haveria sempre a possibilidade de se fazer escolhas, ainda que não soubesse fazer nenhuma. Eu quis poder, naquela hora. Dai fiquei pensando se porque eu posso 'e que eu sou".
"O medo e a minha consciencia passeando fora de mim".

Friday, 7 August 2009

"A falta que sinto e de tudo, porque tem um pouco de mim em todas as coisas"
"Hoje me experimentei quase"

Wednesday, 5 August 2009

Sobre "Quem me roubou de mim"

"Hoje, depois de acordar um pouco, me lembrei de que as coisas são o nome que damos a elas, ou passam a se-lo por causa dele - passam a se-lo com ele. O que eu sou não tem nome, mas estive pensando que existir apenas também 'e limite, porque assim fico coisa, . Não sou tao forte que possa me misturar ao universo sem me perder nele. Preciso da minha pele em volta do meu corpo, e do meu nome. Preciso de tudo que eu digo que 'e meu. E se sou Humana, fundamentalmente, sou também Deus.
Não adianta criar sentidos em nomes novos nem inventar jogos em que sou presa fácil de mim mesma. O meu sentido esta e fora de mim, que e quando eu deixo de ser somente criatura. Penso que a existência de mim no mundo pode significar o que eu faço pro outro. Matemática pueril que me salva em definitivo, por ora."

Monday, 3 August 2009

resquicios

"São muitas as linhas que trespassam meu corpo de forma que ele se dobrou em excessos. Estou cansada, porem, porque quando começo a me olhar assim, me pergunto se lógica em tentar me entender pra mim, como se essa não fosse a única lógica possível. Me pergunto porque tudo que eu experimento se esvai no tumulto dos meus dias e de repente o tempo que me e paupavel passa a ser o único. O meu cansaço também e sobretudo de mim e de meus pedaços que vadiam em círculos. Também porque,tudo, sempre volta a ser o que era antes, como uma nova Pangeia ou Torre de babel. Meu problema maior, enfim, e que eu gosto de ser humana."

entrevista com Clarice

"Pra minha surpresa, ela tinha uma simplicidade rústica, suas respostas, uma secura suave que me deixavam leve. Ela pensava pouco antes de falar e tinha uma objetividade complexa. De carne e osso, assim, ficava mais próxima. Ela enrolava a língua e tinha os olhos nublados. Pareceu-me triste, mas o que disse era que estava cansada."

Tuesday, 14 July 2009

documentario sobre Glauber Rocha

"Cinema novo, poesia visual, contundente, em cores fortes, secas, suadas. Poema gritado, captura do subconsciente, metáfora em movimento, coisa que perturba como ROCHA em nossos sapatos"
"Precisamos de mais Floresdelis"

Monday, 22 June 2009

"É a idéia de sua perecividade e inimportância que o atormenta."

Sunday, 21 June 2009

"A palavra não me cabe, ainda."

Friday, 5 June 2009

Contorno

Por que você fecha os olhos? É pergunta retórica, eu sei aonde você quer chegar. Usa lente escura pra não confundir quem vê, justifica. Dorme seus dias pra não lidar com o contorno das coisas em tom inquestionável, quase, por causa da luz. Diz (momento de inocência da mais pura)que prefere a noite (e eu acho que é ela que prefere você). À noite as coisas parecem que são outras. Elas lambem os lábios do possível e perdem uns 200 quilos, porque a noite não gosta de culpas. A noite, como página(que você diz ser branca) é permissiva, aceita qualquer traço, qualquer história, qualquer caligrafia. Lânguido,você se envolve em seus braços ambíguos, silêncio de mãe, e acredita, dos pés a cabeça, que tudo vai ficar bem. Ela vai embora com os bolsos cheios das promessas que não vai poder cumprir, mas antes se volta pra você e lança um beijo com gosto de brisa, de uma doçura gélida, pra te lembrar que já é dia.

Friday, 29 May 2009

Aquele dia

Das suas mãos desabotoram-se gestos místicos. Sua boca desfiou versos baratos, sem precedentes.Criou um futuro que não viria nunca. Não era muito de "ses" nem de "quandos", mas não era habitual se deixar discorrer assim, não deliberadamente. Humilhada, vasculhou no tempo nacos de efeito balsâmico. Sentiu caimbra na língua. Era sede, definiu. Se sentiu humana de novo e isso foi uma espécie de consolo. Já via as cascas de cor escura se formando sobre a pele frágil.

Thursday, 28 May 2009

O homem

O homem voltava de ponta cabeça pra casa. Ele passava por carros e pessoas, ônibus e pessoas. Tinha também um mendigo, seu fedor e trapos, um banco sujo (não se sabe pra quê), uma banca de jornais abarrotada de palavras de todos os santos, uns postes de luz cheios de fios entrelaçados no alto (ele achava isso de uma feiúra!). O homem comprou leite e pão na padaria e foi carregando aquele peso toda rua afora. Ele já tinha feito isso antes, todos os antes de hoje. Ele também já conhecia os ladrilhos do chão da rua São Marcos e o vão no cruzamento da esquina da Santana com a São Mateus. Andava na rua porque, preferia sempre o quase triscar dos carros ao invariável desviar de olhos escassos de novidade. São, ele chegava. Era a televisão que ligava primeiro. Depois o sofá e o folhear de jornal. Ás vezes, o beijo da filha. E então o Esquecimento. Salvo.

Longe

Tava me lembrando das linhas que tinha escrito pra mim. Texto truncado assim cheio de surtos e inconseqüências. Era bonito ter aquele espaço todo pela frente pra plantar as letras que escolhi. O diabo é que o espantalho que eu montei tinha um chapéu a la mexicana de abas, juro, excepcionalmente largas, que o sol que eu vi foi só sombra, e teve um pouco de ufanismo também. Mesmo assim tudo era largo, arfante, as têmporas, latejando. E eu acho que tava dormindo quando a paisagem de dentro começou a definhar pra combinar com a de fora. Um verde tímido de árvores até grandes, mas sem poda. Eu colhi uns frutos estranhos uma vez ou outra. Ainda não entendi o mistério das sementes.

Simbolo

Um fluxo de imagens acho que perspicazmente edificadas aqui, bem aos poucos, na minha cabeça. Palavras como submersão e júbilo. Também dor, acho. Coisas coloridas, coisas de espaço, tempo, sentimento. Coisas de dia-a-dia. Eu fico sem jeito com esses braços e pernas, cabeça, tudo caindo. Os olhos assim ciscando as migalhas do pensamento. A urgência de uma imagem grande, que abarque o tempo, o vento e o sonho e os pássaros preu me esticar nessa lonjura até lá atrás da serra. É, meu pensamento é elástico. Space, back space. E eu não acho que tudo é só uma questão de escolha. É meio sorte também.

Linhas Tortas

Não sei o que estava buscando, eu só fui atrás do que você fez pra mim. Nem te conheço e agora acho que já sei até demais. Vontade de rasgar você em tiras bem finas e tecer um emaranhado sem nexo e vermelho, que parece que é a cor que você gosta. Fazer com sua queda milhares de anéis, pequenas ondas, tão definitivamente te arremesso naquele rio profundo que você diz que tem medo...mas fica tentando colocar dentro de você pra depois me inundar com todo ele, bem na minha cara. Pode erguer essa cabeça que já conheço seus truques e dissimulações. Só não levante os olhos, por favor, eu tenho medo de me olhar neles. E não vai muito rápido que me faltam pernas pra te acompanhar. Falta.

Madrugada

Foi de bruços que eu descobri que andava raso, tocando de leve os cantos e as frestas. Vazio vindo de longe, não tão longe que não possa dizer. Eu sei o que tem aí. Esse sobe e desce talhado de ressentimento e mediocridade, essa oscilação de grandeza, que nunca existiu e de onde eu achava que conhecia. Suas cadências e contornos, esses hiatos. De repente dói onde não doía antes e razões novas vêm à noite, sua hora preferida, me deixar estatelada no teto branco e receptivo de sempre. Eu conheço esse círculo, conheço essa nuances, não é por tolice. É por falta de cor, como quando a gente escorrega no lodo da pedra do riacho, e é acolhido por um sorriso que entorpece e delicia o tosco de tudo isso. A gente machuca, a gente ri daquele sangue vermelho, vivo. Depois levanta espanando tudo, roupa, riso, sangue, água, pedra. Via beleza naquelas linhas do meio que julgava terem sido postas ali, só pra mim. Eu podia sentir o doce, feito algodão, sutil e absoluto, galgando rápido rumo aquela amargura toda. É tarde demais agora. E eu não gosto de olhar pra mim assim.