PEDRO
Pedro sentou-se na pedra com o cotovelo sobre a coxa, a mão escorada no rosto, segurando a cabeça pendida pro lado. Olhou pro chão procurando coisas pequenas que lhe pudessem distrair o pensamento porque a cabeça já começava a doer de novo. Achou uma formiga de cor esquisita que tentava sozinha carregar um cisco de qualquer coisa duas vezes maior que ela do chão. Ficou ainda mais triste por causa daquilo. Um bicho que existe pra comer. Pior é que existia sem nem saber que existe. Existir não lhe significava coisa alguma. Sentiu pena e quis olhar pra cima. Por uns segundos ainda via a formiga no fundo azulão. O sol estava forte e o céu quase sem nuvens. Lembrou da moça morena, Ana o nome dela, falando que porco não olha pro céu porque o pescoço dele não dobra. Coitado. Além de não saber que existe, não sabe que existe o céu. Não vê a chuva nascer, nem o sol, nuvem, lua, estrela, nada. Conhece só o depois do que vem de cima, como o pingo que espirra da chuva quando cai no chão ou o sol queimando o seu couro enquanto enfia o focinho na lavagem, e come. Sente sem saber a causa. E nem quer saber, porque não sabe que não sabe... Imaginou um chiqueiro com todos os porcos virados com os quatro tocos de pernas pra cima, olhando pro céu e fazendo aquela algazarra de gritaria, como quando vão ser mortos. Bicho resignado. Bicho sem porque, nem para. Engraçado é que ele grita, de medo. Medo puro. Pedro ficou pensando qual era a parte de si que não dobrava e do tanto de coisa que deixava de saber por causa disso. Achou aquilo tudo besteira depois, porque entendeu que nada tinha de resignação naquele bicho. Pra quê ficar buscando no céu o que o chão lhe dava, se era só disso que precisava. Coitado era ele que entendia que existia, entendia que não sabia, e ainda assim não conseguia saber o que é que estava buscando. E se era o homem que dava sentido ao porco, Pedro viu que nisso, ele e o porco, ele e a galinha, ele e a formiga, eram iguaizinhos. Sozinho, assim, também não tinha nem porque, nem para. Foi por isso que, naquela tarde, ele saiu da beirada do rio. Pra falar com ela. Não aquela fala desértica de sempre. Queria que da sua boca brotasse alguma coisa. Alguma coisa pra encantar Helena.
HELENA
Como não tinha outro jeito, Helena imaginava. Hoje, enquanto apanhava jabuticaba do pé pra geléia da mãe. Já tinha ensacado todas as dos galhos baixos e as do tronco do meio, as que não exigiam muito esforço. Agora teria que subir na árvore se quisesse mais. Largou o saco no chão, largou também o pensamento que tinha na cabeça, e sem cerimônia levantou a perna o mais alto que pôde. Agarranchou o pé num buraco qualquer da árvore, segurou um dos galhos com um braço, com o outro apoiou seu peso no tronco e deu o impulso pra levar o corpo pra cima. Como não via ninguém, nem se importou com o vestido que agora já não cobria nada. Ajeitou-se e achou que de pé dava mais jeito de apanhar a fruta. De pé, viu do outro lado da cerca que Pedro estava sentado na beirada do rio de novo. Tava com a cabeça pendida pro lado, olhando ora pro chão, hora mais demorada pro céu. Parecia triste. Sentiu pena dele. Helena achava Pedro estranho. Quieto demais. De vez em quando surpreendia o olhar dele em cima dela, antes que ele tivesse tempo de desviá-lo. A cara que fazia depois não deixava ela saber ao certo o que é que ele queria dizer com aquilo. Ficava quieto. Não corava. Abaixava a cabeça e saía sem dizer um ai. Bicho resignado. Se fosse Helena, dizia. Dizia logo o que queria e o que não queria. Ela, que não tinha medo de palavra nenhuma. Nem de dita nem de ouvida. Engraçado que ela tinha medo de porco, de galinha, até de formiga, mas de palavra, não. Também não tinha medo de subir em árvore, nem de Quinho, que todo mundo morria de medo, só porque era grande. E porque ficava bravo quando não comia. Não foi uma nem duas vezes que ela se machucou enquanto brincava com o bicho que não sabia do tamanho da própria força e jogava Helena no chão. Desconcertado o bicho ia tentar desmanchar o mal feito alisando Helena, sem saber que agora era sua unha que arranhava a cara dela. Doía, mas Helena não conseguia parar de rir da bobice do cachorro, que tentando dizer do jeito dele que gostava dela, acabava machucando-a mais e mais, até se cansar. O danado gostava mesmo era da mãe, porque era ela, todo dia, que se lembrava de botar comida pra ele. Outra doidice de Helena era ficar dizendo uma mesma palavra várias vezes, até o som dela assim, repetidamente, perder o sentido. Chegava quase a esquecer de verdade o seu significado primeiro e tinha que parti-la de novo, devagar, fazendo força pra lembrar o que estava dizendo. Mas Pedro era mudo. Se não fosse fazia que era. Ela até gostava disso porque Pedro lhe lembrava ela, quando afundada no pensamento, esquecida de falar com o povo da casa. Coisa de quem tinha história na cabeça. Só percebia que tinha se feito muda quando alguém perguntava por que é que ela tava sorrindo. De resposta, ela tirava o olhar do nada e fitava o dono da pergunta, sorrindo de novo. Viu quando Pedro se levantou. Ficou olhando ele se afastar e tentando descobrir no ritmo do passo, no balanço dos braços e no onde dos olhos dele, qual era a história que Pedro estava imaginando. Ela quis gritar o nome dele e esconder atrás da folhagem. Achou aquilo de se esconder besteira e decidiu só chamar por ele. Mas ele não ouviu.
A MÃE
A mãe tinha nome, e era Joana. Nome escolhido pra combinar com Ana, Viviana, Eliana, Diana, Mariana. Ela até que gostava porque tinha ouvido em algum lugar, uma vez, que Joana era nome de guerreira. Guerreira pra ela era gente que luta, luta de vida mesmo. Luta de levantar cedo, plantar, lavar, passar, cozinhar, limpar, costurar, entender, essas coisas de mãe. E de esposa. Parecia até que já tinha nascido assim porque não se lembrava dela de outro jeito. Às vezes, quando olhava pra Helena, tinha a impressão de se ver em relances. Mais nos traços que nos modos, porque Helena era menina de vento, como o pai dela dizia meio contrariado. Helena não dava pra dizer numa palavra. Joana gostava do olhar de Helena contra a luz que batia no vidro da janela, a de cima da pia, quando depois do almoço ela ia lavar as vasilhas, cantando. Helena sentava no chão e cantava com ela, mexendo num trapo qualquer, observando. Era amor que Joana via na filha. Cantava mais alto quando Helena estava por perto. Cantava até esquecer que era mãe, que Helena era filha, cantava até esquecer. Outra hora perdia a paciência quando via que Helena não estava ali. Depois, o que sentia era medo mesmo. Tinha vontade de sacudir a filha pelos ombros com violência e dizer com a voz doce pra ela descer, de onde é que estivesse, e colocar os pés no chão. Como não era assim de rompantes, ela dizia - Helena! - e Helena parava de fazer o que é que fosse e vinha ajudar a mãe. Perguntava o que é que precisava picar, o que é que precisava limpar, onde é que a mãe queria que botasse isso ou aquilo. Hoje Joana mandou ela apanhar jabuticaba pra fazer uma geléia que José gostava. Ele comia tudo, sem nem erguer o pescoço, olhando pra dentro do pote. Levantava, resmungava qualquer coisa e saía. Joana às vezes desconfiava que José já não gostava muito da vida. Mas não tinha medo dele querer dar fim de nada, porque no fundo sabia que ele era só bom demais. Por isso ontem fazia galinha, hoje geléia, amanhã qualquer outra coisa de que ele gostasse. Ela fazia de um tudo. Que era grato Joana também sabia porque ele sempre comia com gosto. De noite, dormia de costas pra ela. De manhã, mal mal dizia um bom dia. Joana não esperava obrigado, nem beijo, nem nada dessas coisas. Não era de nhenhenhém, ou já estava acostumada com o jeito do marido mesmo. Pra ela era de bom tamanho que ele voltasse sempre. E que, de vez em quando, olhasse pra ela no meio da noite, achando que ela dormia. Às vezes ele falava, falava de Helena. Menos que quando começaram a dizer que ela não regulava das idéias. Como se já tivesse se conformado que ela não batesse mesmo e que, ninguém, nunca, fosse querer a filha. Joana não achava a idéia de todo ruim. José ficava fora o dia inteiro, Helena lhe fazia companhia. Antes tinha a Mariana. E era assim mesmo. Não conseguia controlar. Toda vez que se lembrava da doidice de Helena, se lembrava de Mariana. Porque Mariana decidiu tirar a vida na frente de Helena. José achava que isso era que tinha destrambelhado a menina. Foi numa tarde parecida com essa de hoje, Mariana quase da idade de Helena, menos menina, subiu no quarto de José e pegou a arma, sem fazer barulho algum. O barulhão só veio depois, primeiro o do disparo, depois o do choro de Helena. José subiu correndo as escadas, Joana saiu do choque tão rápido que nem parece que entrou nele. Quando chegou no quarto José olhava pela janela, olhava lá pro lado da serra, com Helena ainda chorando no colo, toda suja de sangue. Mariana e sua cabeça esfacelada no chão, morta, sem nem um pingo de dúvida. Joana nervosa, com o sangue em todos os cantos do quarto, com José e Helena, que agora era quem parecia que tava cuidando do pai, com a mãozinha suja de sangue no rosto dele, chamando José daquela distância e querendo lhe tirar o peso do olho, o mesmo que parece que carrega até hoje. Joana pegou a irmã no colo e desceu com ela. Joana lavou Mariana e agora já podia chorar e perguntar pra irmã morta o que é que tinha acontecido, como se Mariana já não lhe tivesse deixado saber tantas vezes. Foi bom Helena ter gritado, porque Joana não queria lembrar daquilo. Mas o que é que essa menina tava arrumando agora, chamando Pedro de cima da árvore?
JOSÉ
José caminhava com passos cansados, meio chutando as pedras de terra vermelha que encontrava na trilha pra casa. Tinha matado um tatu grande que lhe pesava no braço, não mais que a cabeça, pra comida da noite. Pensar nisso agora lhe embrulhava o estômago porque não sentia um nada de fome. O chapéu largo o escondia do sol e da luz forte que vinha dele. Mesmo assim o pescoço ardia mais do que o de costume. Deve ser por causa daquela hora que ficou sentado debaixo de sombra nenhuma, limpando o bico da arma que matou Mariana. A mulher não gostava que ele usasse aquela arma até hoje. Dizia que tinha coisa que era melhor enterrar junto com os mortos. Que era melhor ele sabia, mas se Joana lhe dissesse como, era de mais valia. Ele não tava falando de cavar um buraco e meter a arma dentro. Ele tava falando de parar de sentir aquilo toda vez que olhava pra mulher, pra Helena, pra arma e pra sua cara carrancuda no espelho. Todo dia era isso. Era ver Joana e lembrar de Diana, a irmã que era quem devia ser sua esposa, se não tivesse ficado doente. Porque Joana parecia com ela, o cabelo preto escorrido, aquela bochecha cavada no rosto e o olho grande, preto. O de Diana, cheio de rancor pra cima dele, como se ele tivesse culpa do inverno ter sido rigoroso daquele tanto naquele ano. Se ela soubesse que pra ele tanto fazia uma ou outra ia ter morrido com menos desassossego. Gostava de uma o mesmo pouco que gostava da outra. Certo que Joana era mais bonita, mas disso também ele não tinha culpa. Mas o problema de José é que ele sabe que a história não foi bem assim e que pouco antes de Diana morrer, já tinha começado a olhar pra Joana de outro jeito. É que nos olhos pretos de Joana ele não via amargura, ele não via rancor, nem cobrança. Joana aceitava tudo. A irmã morrendo porque estendeu roupa na friagem da noite. Ele, José, seu marido, assim, do ir embora da lua pro levante do sol, como se a terra girasse só pra isso mesmo, pra dar vez pra um outro que não teve a sua. Engraçado é que o que gostava na mulher era também o que tinha uma birra sem tamanho. Bicho resignado essa mulher. Uma mulher pra quem tudo tanto faz. Nem na hora da morte da irmã mais nova, morte feia, coisa trágica, Joana trepidou. Foi ela quem carregou o corpo. Foi ela quem lavou aquele sangue todo, que pra ele lhe custava caber nas vistas, com aqueles mesmos olhos pretos de sempre, aquelas mãos firmes, escorregando no cabelo da Mariana, junto com tudo quanto á que tinha saído de dentro da cabeça dela. Ficou olhando pra janela pra não ter que ver aquilo e também, não se pode esquecer, por causa da culpa. Desde que Mariana se mudou pra morar com ele e Joana, desde aquela época, ele tinha medo do que pudesse acontecer. Mas deixar a menina sem pai, nem mãe, no meio daquela roça perdida, isso nem ele queria, nem Joana ia deixar. Joana tinha uma coisa com aquela irmã dela. Parecia que era mais filha que irmã e queria que José lhe tivesse o mesmo apreço. Ora essa, José já tinha filha e o nome dela era Helena. Se fosse pra ter outro que fosse macho, e Joana sabia disso, apesar de nunca mais ter tocado nele. Enchia a menina de dengo, até parece que esquecia que a menina já era mais moça que menina. Disso Mariana não deixava ele esquecer. Ficava olhando pra ele com aquele olho preto, quase como os de Joana. E ele só olhava pra eles de volta, só olhava porque ficava tentanto descobrir o que é que tinha naquele pretume que era diferente do que ele via no olho da mulher. Tinha uma leveza quando ela olhava pra ele, tinha também um medo tão profundo que José não sabia se era ela ou ele que tava sentindo aquilo. Ele não gostava de ficar perto quando a menina estava. Preferia ficar no quarto, com Helena, longe da secura de Joana, longe daquele abismo de Mariana. Joana dizia que a menina já se queixava achando que José não gostava que ela tivesse ido morar lá, que ia se embora, que agora José já não falava com ninguém. Joana riu quando José mandou ela dar a Mariana o que fazer, ele lembra porque, nessa hora, ele achou que viu alguma coisa de diferente nos olhos de Joana, e riu também. Tá certo que depois ficou com dó da menina e pediu Joana pra fazer pra ela um vestido com um pano que trouxe da cidade, de presente de aniversário. Joana fez com muito gosto e porque era o mesmo que ela usava no dia em que se tirou a vida, José ficou ainda mais ressentido. Tinha pena da menina que já não tinha pai e queria pensar que era esse o bem querer que via nos olhos dela. Isso lhe tirava um pouco daquele peso que ele carregava desde o dia que Mariana decidiu que não queria mais esse mundo. José não entendia como uma menina ainda, daquele jeito, não podia achar na vida nada mais que lhe servisse de desculpa, que olhasse pro lado e visse só um cano de arma luzindo, pegasse aquilo e botasse bem na cabeça, pesado como aquilo era, e puxasse o gatilho, como se tivesse apertando um botão de luz. E ficava nervoso quando pensava que Mariana escolheu fazer aquilo na frente dos olhos de Helena. Se lhe deixasse só o sorriso, a doçura, mas não. Destrambelhou com a cabeça da menina que ficou foi mexendo naquela esfacelera toda de sangue e de restos antes dele chegar no quarto. Agora ficava aí desse jeito de vento, que ninguém dá conta. Porque pra José, pior do que um amor seco, é esse olhar perdido de Helena, que nem sabe que é perdido. O tatu já tinha dobrado de peso no braço quando José decidiu sentar um pouco na pedra pra descansar o pensamento. Viu alguém andando na sua direção e era Pedro, que vinha como ele, catando as pedras do chão. Pedro meio se assustou quando viu José ali e foi quase num impulso que perguntou se lhe era de alguma serventia. José mal teve tempo de pensar se Pedro lhe tinha ou não serventia e o rapaz já tinha tomado o tatu dele. José notou contrariado que o peso do bicho diminuiu nos braços do rapaz. Arte do tempo que já tinha dado a sua força de outras épocas praquele moleque, já nem tão moleque assim. Os dois homens foram, caminhando assim, em silêncio, na direção da casa de José.
ZEFIRA
Zefira conta, com aqueles seus dentinhos miúdos de gente faceira e olho que aperta de propósito, que foi a coisa mais esquisita do mundo. Dessas histórias que quando a gente conta, mesmo que com firula, espichando daqui e dali, não chega nem perto de como aconteceu de verdade, porque essas coisas nunca acontecem num tempo que dá pra contar. Ela tinha que escolher se falava do olho melado de Dona Joana em cima de Seu José primeiro, se contava de Quinho dando a última estribuchada no chão, se falava da boca do menino Pedro que, por milagre de Deus, chamava por Helena que vinha correndo, de lá do outro lado, quando na verdade tudo, sem falar do céu de fim de tarde, do sangue respingando na roupa que esvoaçava no varal, da poeira que subiu do encontro das patas do bicho com o chão, na hora do pulo - tudo aconteceu junto, na mesma hora, que só vendo. Como todo meio de semana, tava ela lá com a barriga colada no tanque, lavando a roupa da casa. Tinha visto quando a desantarantada da Helena com o vestido todo pra cima, ainda se ajeitando, ficou berrando o nome do menino do Seu João, que devia estar carregando o peso do mundo nas costas lá pro lado do rio, moleque esquisito. Dona Joana veio da janela mandar a menina tomar modo e tratar de por a comida do bicho que já tava rosnando de fome porque até agora nenhum filho de Deus tinha se lembrado dele. Foi só o tempo de torcer mais um par de roupa e um lençol e Seu José chegou com o menino do Seu Jõao, o tal do Pedro, segurando o tatu. Mas foi tiro e queda. Quinho de onde tava deu um pulo pra cima do menino, Seu José que mal tinha voltado as costas pro portão que acabava de fechar empunhou a arma numa velocidade que só deu tempo de ver ele xingando tudo quanto é nome, de susto e de raiva de ter apertado o gatilho, mas isso quase ao mesmo tempo de ter apertado o gatilho. Caiu arma, Pedro, tatu, bicho, tudo no chão. O bicho, coitado, que só queria comer o tatu, caiu estatelado, com os quatro tocos de pé pra cima, olhando pro céu. Helena que naquele dia não tirava o nome de Pedro da boca só teve tempo de dizê-lo mais uma vez antes de se esborrachar no chão. Voou jabuticaba pra todo lado e deve ter voado meio mundo de panela pra cima lá na cozinha também, porque Dona Joana veio numa correria doida. Não viu arma, nem Pedro, nem cachorro, nem Helena. Foi logo tateando Seu José em tudo quanto é canto dele. O homem se tremia todo, Zefira não achou que fosse de susto, e se deixou cuidar, olhando pra Joana e, Zefira não tinha certeza porque tava de longe, mas parece que Seu José sorria de canto de boca. Helena numa altura dessas já tinha se levantado do chão com os joelhos e mãos esfolados da queda e corrido pra cima de Pedro, que tinha dado um grito mais alto do que grito de porco que tá pra morrer, de medo puro. Deu a mão pra a ajudar o rapaz a se levantar, se esquecendo, coitada, da finurinha das próprias pernas. Não deu outra e caiu de novo, de joelho, e ficou engraçado porque não dava pra saber quem tava dando a mão pra quem. Ficaram assim um bom tempo, olhando um pra cara do outro, até depois que Dona Joana e Seu José já tinham entrado pra dentro de casa, pra onde depois entraram também. O bicho, coitado, ficou lá no chão com o tiro no meio da fuça. Claro, Zefira sabia que ia sobrar pra ela, porque bicho morto não lhe era novidade. Quando não era cachorro, era porco, era vaca, era galinha, era tatu. Dona Joana mandou cavar uma vala do lado de trás da casa, perto da cerca pra tacar dentro o bicho com arma e tudo. Uma arma boa daquelas que dava até dó, porque Raimundinho podia caçar com ela. Besteira de Dona Joana mandar se defazer da arma, como se uma coisa que não presta pra um não prestasse pra outro. Resignada, Zefira enterrou o que lhe cabia. Voltou pra se lavar do sangue e da terra vermelhos. Sentiu mais pena do bicho do que imaginava que pudesse. Deu vontade de olhar pro céu, como se precisasse entender o que tinha acontecido ali. Encontrou um céu grande demais, de dar medo. Mesmo assim ainda ficou olhando pra cima por mais um tempo. Zefira suspirou, baixou a cabeça e apanhou o tatu que ninguém da casa queria mais comer. Hoje, ela ia ter janta.