Pulou do parapeito da janela onde estava sentado e correu, subindo o morro até o topo. Não havia nada a não ser o verde e a neblina, sol embaçado. Ele, menino, sorria dos cabelos dos braços e pernas se arrepiando de frio. Sentiu nas pontas do dedo o orvalho no mato comprido que já lhe batia abaixo do joelho. Respirou fundo pra se envolver daquele cheiro de manhã. Quis pegar o cavalo e correr pela paisagem, vento soprando forte no rosto. Ficou ali, por um bom tempo, sem criar coragem de descer a serra e despear o animal. E pensando nessas coisas boas e soltas, não percebeu que, já perto, a voz de alguém lhe chamava. Voltou-se na direção da casa e a cada passo em descida, era um pedaço do rosto que se enegrecia. E se lhe perguntassem, ele diria que algo dele se esvaia quando o dia de fato chegava. Coisa preciosa, tangível apenas ou quase, em momentos longe. Se pudesse escolher um nome, seria liberdade. E a única coisa que, durante o dia, lhe trazia de novo esses ares de começo, de um espaço tão grande que não cabe, nele, nenhuma constrição, era o sorriso daquela criança por quem agora já tinha afeto de pai. Eram aqueles olhinhos desavisados se encantando com toda e qualquer faceta do mundo, de perguntas tão doces, que era com sorriso nos lábios que a deixava sem respostas porque, de fato, não sabia delas. Ela lhe devolvia o sorriso nem um pouco desapontado daqueles que sabem que são as perguntas que nos fazem existir. Com alegria, fazia outra, outra e mais outra, já nem esperando mais por nada além de um sorriso, balançando os braçinhos e entoando a voz naquela cadência que pontua a fala com uma interrogação, uma surpresa, uma travessura. Sim, ela tinha cheiro, ele nao sabia? Aquela voz do gravador, veja so, era dela mesmo, como pode? E como e que tinha jeito de olhar as horas num relógio sem número?...Ele sorria e se pudesse, esticava pro dia afora o som daquela voz, pra levar consigo a alegria fresca que aquela meninice lhe causava. Era como se de novo pudesse descobrir as coisas, com um olhar que nao era o seu. E o mundo, assim, com olhares de Ana, era bom.