Falo dessa parte que transborda. Dos filetes que escorrem grossos entre a frouxidão de seus dedos. Não me refiro a tepidez de seus dedos para sugerir sua culpa. Sei que no trajeto entre nossos corpos, há de se caber o que é meu, mas também o que é seu. Doses moderadas deixam vazios, preenchidos a revelia das circunstancias, sempre muito maiores que eu. Às vezes, ignorados, como ignorada a história daquilo que segura de modo displicente. Não menciono o descuidado de suas mãos para sugerir despreparo. Entendo que nessa simbiose, a firmeza das mãos denuncia o desenrolar de nossas escolhas, deliberadas ou acidentais, algumas quase fatídicas, dentro da epopéia das nossas vidas. Falo da impossibilidade entre aquilo que te ofereço e aquilo que espera de mim. Do que de mim, em suas mãos, se transforma em excesso. Falo das sobras.
Thursday, 24 November 2011
Sunday, 13 November 2011
Ela, a quem o calor sempre amolecia, aproveitava essas horas quentes do dia pra lavar roupa e se refrescar um pouco. Dali via a distancia o capinar monotono de Antonio a quem o sol parecia, ao contrario, animar a alma. Entretido com o movimento da enxada, ele agora cantava baixinho uma melodia pra acompanhar o bate-bate fofo da foice na terra. Tinha no rosto o sorriso tranquilo de quem nao pede da vida mais do que ela oferece. Olhou a mulher que lavava roupa debaixo da varanda e se lembrou da conversa sussurrada que ela teve outro dia com Jacira, cortada logo mesmo quando ele entrou porta adentro. De imediato imaginou ser aquilo fuxico de mulher, mas ninguem suspende conversa boba daquela maneira. Teve aquele olhar de Mara, um esforco de docura de quem quer poupar. Ela virou o rosto logo, pra que nao desse tempo de ele ver. Ele achou graca daquilo, e sabia que mais cedo ou mais tarde, ela acabava falando, pelas beiradas, ate que quando ele percebesse, a coisa ja estava ali, falada.
A noticia
A noticia
As palavras de Mara tinham pontas afiadas, cortavam o ar e doiam no corpo de Antonio. A garganta, o estomago, de repente. Um copo de agua com acucar e ela pediu calma. Nada porem para lhe organizar novamente as ideias. Permaneceu assim por um tempo que nao sabe dizer, constrangido pela incapacidade de falar alguma coisa que valesse a pena naquele momento. Um frio agudo percorreu a sala. Suspeitou que fosse a perda lhe rondando, em desafio. E agora? Ouvia agora a voz tranquila de Mara. Levou tempo para entender as palavras que saiam de sua boca. Voce vai ficar bem, ela dizia, voce vai ficar bem. Repetia em circulos. Era isso uma pergunta? Falava Mara com ele ou consigo? Ele ouvia, buscando os contornos daquela voz cuja docura agora causava nauseas. A cabeca, pesada, pendeu pro lado, buscando consolo no encosto do sofa. Antonio adormeceu ali.
Na ultima parte do sonho, via a mulher lhe perguntando se ele queria mais um pouco de cafe. Acordou com a boca amarga, procurando por ela. Mara!...a voz lhe saiu rouca. Ela estava sentada ao lado e ele nao viu. Estou aqui, Antonio, respondeu baixinho.
Mara
Mara
Mara andava a passos leves, carregando em silencio uma tristeza tao branda que se confundia, as vezes, com alegria. Nao lhe preocupava a morte. Suspeitava mesmo que ela estivesse mais perto que longe, antes ate de saber da doenca. Se vasculhasse bem o sentimento, poderia falar, quem sabe, de um certo alivio. A vida era boa, mas era tambem um fardo. E Mara era feliz, mas ja estava cansada. Amava as coisas agora com uma tranquilidade serena de quem esta se despedindo aos poucos. E aquela tristezinha fina era por Antonio, pra quem a vida tinha sido ate entao facil de se pegar, de se olhar com as maos e de se saber pra que. Antonio so era Antonio com Mara. Sem ela, ele ia ter que aprender a ser outro. Era nisso que Mara pensava quando colocou os primeiros aneis de cebola na chapa quente da panela.
Depois da noticia do cancer de Mara, nao se via mais no homem os efeitos do sol. Antonio agora andava languido qualquer que fosse a cor do dia. Ja esquecido de como era sentir medo, de uma hora pra outra passou a ver medo em todos os cantos. Parou no meio da sala franzindo a testa como se tivesse notado uma coisa estranha. Faltavam coisas ali. Uma mesa e um banco de canto pra cobrir o espaco vago entre a porta e o outro sofa, debaixo da janela. Comecou a calcular a madeira que ia precisar medindo com os olhos o comprimento do parapeito. So depois de um tempo percebeu que ja nao pensava no movel da sala. Dali dava pra ver a tardezinha indo embora, cobrindo o monte com um sol laranja vivo. A vista, descansada no verdume ate o alto do morro, olhava com insistencia pro espaco largo da paisagem. Parecia buscar algo em que pudesse se fixar de novo. Sem perceber, se fixou no vazio.
O depois
Ele se lembra bem de como ela explicou pra ele como iam fazer. Naquele dia levantaram cedo os dois, mas Mara nao fez o cafe. Lhe deu um beijo na barba e nas duas maos, puxando Antonio devagar para a cozinha. Ja havia preparado algumas coisas do que ia precisar. Havia pedacos de pao dormido, pote de acucar sobre a mesa. Uma frigideira no fogao, oleo ao lado. O primeiro prato seria rabanada. E antes que Antonio pudesse se sentar, Mara puxou o banco de supetao.
Mara foi explicando devagar, os gestos acompanhando a fala. Ele olhava os seus movimentos. O seu silencio pareceu a Mara de inicio, atencao; depois, entendeu que ele ja nao a ouvia. Antonio nem notou quando a mulher parou de falar. So percebeu a propria ausencia quando ela se virou pra ele e segurou seu rosto com as duas maos, dizendo que fizesse aquilo por ela. Antonio foi no galinheiro, buscar os ovos.
Os avos de Ana
Ana conheceu pouco a avo mas ela se lembra bem do que sentia quando ia visita-la aos domingos. Eram dias esperados aqueles, desses que justificam muita coisa. A casa dos avos era toda acolhimento, e la, sabia, ia encontrar os tios e primos tambem. Uma alegria so, converseiro alto, gente deitada na rede, o Vo mostrando a roca pro pai e pros tios, a Vo na cozinha, vai e vem tranquilo, sorrisinho de canto pensando ali, pensando longe.
Tinha uma foto na sala, dessas antigas, pintadas. A mae contou que era os avos mais mocos. Ana lembra que nunca acreditou naquilo e achou graca. O olhar de crianca nao lhe deixava ver aquele sorriso da moca com os olhos de agora. Sim, era o sorrisinho de canto da vo Mara, olhando pra frente e ao mesmo tempo, sabe-se la pra onde. E tinha aquele olhar do vo, que nao sabia se era orgulho ou descrenca, querendo virar pro lado logo, como pra se certificar que a vo tava ali mesmo. Os olhos de Ana marearam. Ela foi procurar o vo.
Encontrou-o na cozinha, andando de um lado pro outro. Estava alegre, porque ele gostava quando todo mundo ia pra la aos domingos, justamente como antes. Ana lembra que deixaram de ir na casa dele por um tempo, e ate que o pai queria que o vo fosse morar com eles, mas depois teve uma grande ocasiao. Foi um bafafa porque toda hora o telefone tocava, o pai ria ao telefone. Todo mundo se preparou muito pra esse dia e era domingo. Ana viu a mesa pronta e o pai, a mae, os tios, com os olhos cheio de agua. O pai abracou vo Antonio e chorou muito. Na hora de ir embora, vo Antonio disse que esperava todo mundo pro proximo domingo.
Ele andava de um lado pro outro, fazendo lembrar a Vo. Recebeu Ana com um olhar doce, ela lhe beijou a barba. Mandou ela sentar enquanto ia no galinheiro buscar uns ovos. Ia fazer uma rabanada.
Os avos de Ana
Ana conheceu pouco a avo mas ela se lembra bem do que sentia quando ia visita-la aos domingos. Eram dias esperados aqueles, desses que justificam muita coisa. A casa dos avos era toda acolhimento, e la, sabia, ia encontrar os tios e primos tambem. Uma alegria so, converseiro alto, gente deitada na rede, o Vo mostrando a roca pro pai e pros tios, a Vo na cozinha, vai e vem tranquilo, sorrisinho de canto pensando ali, pensando longe.
Tinha uma foto na sala, dessas antigas, pintadas. A mae contou que era os avos mais mocos. Ana lembra que nunca acreditou naquilo e achou graca. O olhar de crianca nao lhe deixava ver aquele sorriso da moca com os olhos de agora. Sim, era o sorrisinho de canto da vo Mara, olhando pra frente e ao mesmo tempo, sabe-se la pra onde. E tinha aquele olhar do vo, que nao sabia se era orgulho ou descrenca, querendo virar pro lado logo, como pra se certificar que a vo tava ali mesmo. Os olhos de Ana marearam. Ela foi procurar o vo.
Encontrou-o na cozinha, andando de um lado pro outro. Estava alegre, porque ele gostava quando todo mundo ia pra la aos domingos, justamente como antes. Ana lembra que deixaram de ir na casa dele por um tempo, e ate que o pai queria que o vo fosse morar com eles, mas depois teve uma grande ocasiao. Foi um bafafa porque toda hora o telefone tocava, o pai ria ao telefone. Todo mundo se preparou muito pra esse dia e era domingo. Ana viu a mesa pronta e o pai, a mae, os tios, com os olhos cheio de agua. O pai abracou vo Antonio e chorou muito. Na hora de ir embora, vo Antonio disse que esperava todo mundo pro proximo domingo.
Ele andava de um lado pro outro, fazendo lembrar a Vo. Recebeu Ana com um olhar doce, ela lhe beijou a barba. Mandou ela sentar enquanto ia no galinheiro buscar uns ovos. Ia fazer uma rabanada.
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