O que viu na agua foi uma figura disforme. O primeiro impulso foi o de se agarrar a qualquer coisa essencialmente simples. Segurou aquela mão com forca e se deixou levar pra bem longe de si. Perguntou pra que escrevia? Disse que era pra tentar entender as coisas. Riu com toda a ironia que lhe foi possível. Pegou uma pagina, bocejou, largou de lado. E quando depois de olhar pro nada, como se meditasse, achou que fosse dizer, se levantou, comeu um doce e pediu pra ir embora. Lhe deu a mão, um pedaço do doce. Andaram calados. Seguiu com os olhos o cabelo azul do menino que passou ao lado. Quando chegaram, percebeu o movimento do seu corpo. Envolveu-lhe com seu braço e pediu calma. Deixou sua voz lhe abafar o pensamento. De novo, fugiu.
Monday, 31 August 2009
Holistica (depois de ver "Ponto de Mutacao"
Estava frio, o vento a espreita, atento ao momento certo. Uma cortina de nuvens brancas cobrindo todas as frestas azuis de céu, sobre a cabeça. Pedra ao redor dos pés. O vazio que constitui, que se toca, que se vê, e o vazio que separa os pés do chão, a mão do alimento, o corpo do resto. Tudo em potencia, tudo sob perspectiva. A cada passo, um quase movimento frustrado, possível. Apetite de mundo. Como? Se repetia pra si, ora pro Cosmos. A roupa agora dançava tocando o varal ao ritmo do vento que começara a soprar, tímido, por mais que o mundo fosse mundo. E daqui que eu vejo, e você já não existe há séculos, falou pra estrela(culpa de Einstein e sua teoria, não foi isso que ouviu aquele dia?). De novo, o sentido lhe pareceu desimportante, porque o movimento e dialetico sempre. De novo, os contrários extremos lhe pareceram exatamente iguais (não foi você que disse que via o chão trincado do sertão quando olhava pro céu?).Pra que? Foi quando decidiu calar.
Monday, 24 August 2009
do MEIO...Sentimento de "ninguendade" (depois de ler "O povo brasileiro")
"Não sou índia, não sou negra, não sou branca, não sou preta, não sou pobre, nem sou rica, não sou feia, nem bonita. Eu cozinho, eu comento, eu produzo, eu sustento, sou do lar e sou da rua, falo nobre e falo crua. Eu sou Kenya, sou começo, terra preta sim sinho, eu sou Silva, brasileira, da mistura, de labor. Sou também daquela terra, mar aberto, insensatez, trago sangue, trago historia, do Gonçalves português. Sou do sul, sou do leste, quase centro, logo ali. Sou de Minas, sou vizinha, esbarrando la e aqui.Geografia nariguda desenhada pro poente, numa busca de riqueza, que era ouro, que era gente. Sou de fora, sou de dentro, violão, samba e metal, ouvi tudo, sei de nada, e no final e tudo igual."
Saturday, 15 August 2009
Sobre "Quem me roubou de mim"
"Entendi então que minha subjetividade e' ameaçada toda vez que me perco da minha identidade, já que 'e ela que me faz ser alguma coisa diferente de todo o resto. Mas você fala de identidade como se houvesse ai unidade pressuposta, me da o exemplo clássico de um mosaico, que 'e mosaico porque 'e múltiplo e uno, 'e parte e 'e todo. A minha dificuldade esta em organizar as minhas partes e dar a elas algum nível de hierarquia, porque elas são diversas demais pra ocupar o mesmo lugar em mim e ai, alias, já não seriam partes. As partes são como minha identidade por vir. Mas um mosaico 'e um plano, um projeto de mundo que existe antes de começar. E eu não sei como mundificar tudo que eu sorvo. 'E caos, 'e imundo, e sou eu também. Suponho que o difícil e costurar tudo combinando cores, tons, tamanhos. O trabalho mais difícil 'e o de criar as linhas, de definir onde começam e onde terminam as partes. Nessa função 'e que me perco".
"Eu quis sentir a minha humanidade e ouvir os sons daquele instante. Ter a sensação de mim no mundo com e apesar de tudo. O sentimento foi de medo e solidão, medo de perder aquela vida tão maior que eu. Medo de não conseguir dar conta do correr do sangue nas minhas veias, como se eu não estivesse ainda ou nunca fosse estar pronta pra existir. Medo, também, de ser notada em minha fragilidade e não poder carregar meu corpo nesse mundo afora. Naquele momento eu quis a vida, assim mesmo, fazendo dela qualquer coisa que eu não sei. Porque tendo a vida haveria sempre a possibilidade de se fazer escolhas, ainda que não soubesse fazer nenhuma. Eu quis só poder, naquela hora. Dai fiquei pensando se porque eu posso 'e que eu sou".
Wednesday, 5 August 2009
Sobre "Quem me roubou de mim"
"Hoje, depois de acordar um pouco, me lembrei de que as coisas são o nome que damos a elas, ou passam a se-lo por causa dele - passam a se-lo com ele. O que eu sou não tem nome, mas estive pensando que existir apenas também 'e limite, porque assim fico coisa, só. Não sou tao forte que possa me misturar ao universo sem me perder nele. Preciso da minha pele em volta do meu corpo, e do meu nome. Preciso de tudo que eu digo que 'e meu. E se sou Humana, fundamentalmente, sou também Deus.
Não adianta criar sentidos em nomes novos nem inventar jogos em que sou presa fácil de mim mesma. O meu sentido esta e fora de mim, que e quando eu deixo de ser somente criatura. Penso que a existência de mim no mundo pode significar o que eu faço pro outro. Matemática pueril que me salva em definitivo, por ora."
Não adianta criar sentidos em nomes novos nem inventar jogos em que sou presa fácil de mim mesma. O meu sentido esta e fora de mim, que e quando eu deixo de ser somente criatura. Penso que a existência de mim no mundo pode significar o que eu faço pro outro. Matemática pueril que me salva em definitivo, por ora."
Monday, 3 August 2009
resquicios
"São muitas as linhas que trespassam meu corpo de forma que ele se dobrou em excessos. Estou cansada, porem, porque quando começo a me olhar assim, me pergunto se há lógica em tentar me entender só pra mim, como se essa não fosse a única lógica possível. Me pergunto porque tudo que eu experimento se esvai no tumulto dos meus dias e de repente o tempo que me e paupavel passa a ser o único. O meu cansaço também e sobretudo de mim e de meus pedaços que vadiam em círculos. Também porque,tudo, sempre volta a ser o que era antes, como uma nova Pangeia ou Torre de babel. Meu problema maior, enfim, e que eu gosto de ser humana."
entrevista com Clarice
"Pra minha surpresa, ela tinha uma simplicidade rústica, suas respostas, uma secura suave que me deixavam leve. Ela pensava pouco antes de falar e tinha uma objetividade complexa. De carne e osso, assim, ficava mais próxima. Ela enrolava a língua e tinha os olhos nublados. Pareceu-me triste, mas o que disse era que estava cansada."
Subscribe to:
Posts (Atom)