Das suas mãos desabotoram-se gestos místicos. Sua boca desfiou versos baratos, sem precedentes.Criou um futuro que não viria nunca. Não era muito de "ses" nem de "quandos", mas não era habitual se deixar discorrer assim, não deliberadamente. Humilhada, vasculhou no tempo nacos de efeito balsâmico. Sentiu caimbra na língua. Era sede, definiu. Se sentiu humana de novo e isso foi uma espécie de consolo. Já via as cascas de cor escura se formando sobre a pele frágil.
Friday, 29 May 2009
Thursday, 28 May 2009
O homem
O homem voltava de ponta cabeça pra casa. Ele passava por carros e pessoas, ônibus e pessoas. Tinha também um mendigo, seu fedor e trapos, um banco sujo (não se sabe pra quê), uma banca de jornais abarrotada de palavras de todos os santos, uns postes de luz cheios de fios entrelaçados no alto (ele achava isso de uma feiúra!). O homem comprou leite e pão na padaria e foi carregando aquele peso toda rua afora. Ele já tinha feito isso antes, todos os antes de hoje. Ele também já conhecia os ladrilhos do chão da rua São Marcos e o vão no cruzamento da esquina da Santana com a São Mateus. Andava na rua porque, preferia sempre o quase triscar dos carros ao invariável desviar de olhos escassos de novidade. São, ele chegava. Era a televisão que ligava primeiro. Depois o sofá e o folhear de jornal. Ás vezes, o beijo da filha. E então o Esquecimento. Salvo.
Longe
Tava me lembrando das linhas que tinha escrito pra mim. Texto truncado assim cheio de surtos e inconseqüências. Era bonito ter aquele espaço todo pela frente pra plantar as letras que escolhi. O diabo é que o espantalho que eu montei tinha um chapéu a la mexicana de abas, juro, excepcionalmente largas, que o sol que eu vi foi só sombra, e teve um pouco de ufanismo também. Mesmo assim tudo era largo, arfante, as têmporas, latejando. E eu acho que tava dormindo quando a paisagem de dentro começou a definhar pra combinar com a de fora. Um verde tímido de árvores até grandes, mas sem poda. Eu colhi uns frutos estranhos uma vez ou outra. Ainda não entendi o mistério das sementes.
Simbolo
Um fluxo de imagens acho que perspicazmente edificadas aqui, bem aos poucos, na minha cabeça. Palavras como submersão e júbilo. Também dor, acho. Coisas coloridas, coisas de espaço, tempo, sentimento. Coisas de dia-a-dia. Eu fico sem jeito com esses braços e pernas, cabeça, tudo caindo. Os olhos assim ciscando as migalhas do pensamento. A urgência de uma imagem grande, que abarque o tempo, o vento e o sonho e os pássaros preu me esticar nessa lonjura até lá atrás da serra. É, meu pensamento é elástico. Space, back space. E eu não acho que tudo é só uma questão de escolha. É meio sorte também.
Linhas Tortas
Não sei o que estava buscando, eu só fui atrás do que você fez pra mim. Nem te conheço e agora acho que já sei até demais. Vontade de rasgar você em tiras bem finas e tecer um emaranhado sem nexo e vermelho, que parece que é a cor que você gosta. Fazer com sua queda milhares de anéis, pequenas ondas, tão definitivamente te arremesso naquele rio profundo que você diz que tem medo...mas fica tentando colocar dentro de você pra depois me inundar com todo ele, bem na minha cara. Pode erguer essa cabeça que já conheço seus truques e dissimulações. Só não levante os olhos, por favor, eu tenho medo de me olhar neles. E não vai muito rápido que me faltam pernas pra te acompanhar. Falta.
Madrugada
Foi de bruços que eu descobri que andava raso, tocando de leve os cantos e as frestas. Vazio vindo de longe, não tão longe que não possa dizer. Eu sei o que tem aí. Esse sobe e desce talhado de ressentimento e mediocridade, essa oscilação de grandeza, que nunca existiu e de onde eu achava que conhecia. Suas cadências e contornos, esses hiatos. De repente dói onde não doía antes e razões novas vêm à noite, sua hora preferida, me deixar estatelada no teto branco e receptivo de sempre. Eu conheço esse círculo, conheço essa nuances, não é por tolice. É por falta de cor, como quando a gente escorrega no lodo da pedra do riacho, e é acolhido por um sorriso que entorpece e delicia o tosco de tudo isso. A gente machuca, a gente ri daquele sangue vermelho, vivo. Depois levanta espanando tudo, roupa, riso, sangue, água, pedra. Via beleza naquelas linhas do meio que julgava terem sido postas ali, só pra mim. Eu podia sentir o doce, feito algodão, sutil e absoluto, galgando rápido rumo aquela amargura toda. É tarde demais agora. E eu não gosto de olhar pra mim assim.
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