Saturday, 18 September 2010

Se por um lado desprezava a gana do homem de nao ser bicho, que sentido se debrucar nesse amontoado de palavras? Nuca inclinada, olhos nervosos, buscando. Ja havia vivido suficiente pra entender o vai e vem das descobertas - re e re-descobertas de tempo em tempo. E, no frigir dos ovos, conseguia viver so de be-a-ba. Entao por que a insistencia? Suspeitava que isso estava ate distorcendo habilidades que supostamente deveria ter masterizado ha tempos, como falar coisas inteligiveis, por exemplo. Colocava uma palavra na frente da outra, e o franzir das testas cordialmente sugeriam que, talvez, estivesse falando outras linguas ou intercalando pausas truncadas. Metamorfose inacabada, meio homem, meio bicho - esfinge, deitando enigmas que ninguem quer decifrar, por falta de saco, ou de outras coisas. Excesso de opcoes nunca lhe pareceu algo bom. Que remedio, senao o agora e que saida, senao entrar aqui.

Saturday, 4 September 2010

Wednesday, 1 September 2010

Fazia assim um exercicio de distanciar-se. Estando ali, afastava-se do momento pra o conceber por inteiro, desconstruindo-o... Tocava-o com novidade, para entao conhecer a si mesmo. E olhando de longe, era agora um terceiro, em tumulto. No exercicio de nao ser mais e nao ser ainda, caminhava em chao vacilante - onde podia crescer, sabia, mas isso ainda nao lhe dizia tudo. Assim, decidia de novo aproximar-se, ate perder o foco. Porque as vezes, carece-se de poeira nos olhos. E pra amar, virar-se, de leve, as proprias costas.

Saturday, 7 August 2010

Delegou a palavra um poder que ela jamais teria, simulacro que e de Coisa que nao se diz. Acreditou assim estar mais proximo da verdade, da justica ou destreza de carater. Como se a fidelidade a coisa dita apagasse da veia a inconstancia dos desejos. Soldadinho do mundo, SABER nunca lhe valeu de nada. Portanto contribuia quinzenalmente com os dois pounds da caridade, apesar da escolha deliberada de caras sujas e gastas, o drama da musica de fundo, o velho discurso em voz solene... chorava e, logo em seguida, preparava um cafe quentinho. Tambem juntava dinheiro para a casa propria e pagava previdencia privada, ao mesmo tempo em que envelhecendo, ainda esperava o momento certo.

Monday, 19 July 2010

A coisa, se transformando em certeza, aos poucos, pela constatacao de que, sejam quais forem as hipoteses, ela nao muda. Retifica-se, crua e definitiva, como o passar dos anos na flacidez da pele, na cor fugidia da fruta, no empilhamento de memorias perdidas. E se ela nao muda, resta buscar, no instante, um resquicio de possibilidade pra, com sorte, poder sentir um pouco. Tocar os bracos tao frageis quanto e fingir importancia, juntos. Talvez, com sorte, sorrir, pateticos e cumplices, dessa nossa historia.

Monday, 5 July 2010

Face me

O que se segue depois de um dia pouco fertil e a vontade de uma forma de redencao que pareca plausivel e de pra carregar nas costas.
Dizem que, depois da explosao, a terra se partiu e, ainda entao, os pedacos se afastam, pra sempre, de uma forma que nao se sabe ser ou nao reversivel. A questao e que as distancias continuam, apesar da rede. Agora legitimadas pelo advento do veloz, do instantaneo - do agora ou nunca. Falaram de uma pos-modernidade liquida e de uma solidez que se desmancha no ar. De identidades escoando ralo abaixo pra nunca mais. De outras, surgindo, sem saber pra que servem, e se de fato o sao.  Falaram de um com-tato, sem tato, e dessa gente toda amiga que experiencia o corpo texto e suas carinhas... O mundo com suas ligacoes frageis, estaticas pois sem futuro, segue (?) - desmundo. E eu, de quase todos os angulos: minuscula. Na minha longa lista de urgencias: hesitacao, e um abraco demorado. Meu peso e vulneravel, mas ninguem quer saber.
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Saturday, 8 May 2010

O corte

Cada elemento, todos eles, ou a sua ausência, os lugares comuns, justapostos de maneira cautelosa, de forma que as cores, os traços, os panos e o suposto desleixo com que caem sobre a pele pareçam verdadeiros. As cascas do esmalte vermelho que arranca entre dentadas e cuspidinhas nervosas, constrastam com a delicadeza plástica da flor que usa para enfeitar o cabelo amarelo-fosco. Os gestos rabiscam simétricos o convite aconchegante de uma forma que se re-conheca de pronto, por pura ou ingénua vontade de verdade. No espelho, um olhar tatea dúbio o não-ser que ali se forma, como se por fim condenasse o ato chulo de se constituir entre uma negação e outra. Gotas espalmadas de uma essência num frasco rosa, o batom, ombros a mostra - um sapato - completam o corte.

Monday, 5 April 2010

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: Is the misunderstanding better than the no understanding at all?

: there is no such thing like não entendimento and there will be always misunderstanding anyway. O silencio não garante fidelidade. E código ambíguo, não neutro e requer estrutura. Falar e sempre mais seguro - e mundano. E ainda que entre o que diga e você haja aquele familiar abismo, a tentativa (entre?), sempre vale a pena. A tentativa e mais sua que o silencio. E e bom se lembrar de que não existe nada seu.

Saturday, 27 March 2010

Enquanto você falava de coisas podres, e de como e bom ser tolerante com o lixo nosso de cada dia, em todas as suas acepcoes, eu pensava na presença. Eu pensava não na chance de vida que se da a alguma coisa que não presta, mas na possibilidade de se viver com aquilo que se tem. Você reiventando o lixo, eu, transformando o resto. Você falando de tolerância e espera, eu, de aceitação, acho. Já não sei dizer onde termina a criatividade e onde começa a resignação. De uma forma ou de outra, o que não suporto e o desperdício.
Monet
Procuro um significante que valha a pena. Uma forma de romper com a previsilidade desse traco que imprime no papel essas letras cheias de si. Desalinhar o texto assim como o pensamento, fazer do simbolo a coisa mesma, sem entre-lugar. Descartar binarismos, analogias e ate hibridismos. Te dizer em linha reta e te poupar do eventual desejo de mim.
Inventaram, entretanto, a palavra. E com ela, nossa impossibilidade. Em protesto, eu tento, sabendo que mais facil seria deixar a folha em branco. Entao espero que entenda que quando escrevo, quando busco uma palavra ou uma imagem, o que quero, mesmo, e te levar pra longe daqui.

Friday, 12 March 2010


Has the face fallen out on one side?
Can they smile?
Can they raise both arms and keep them there?
Is their speech slurred?

Just like a fire, its time to call 999.
:What if any of the available options represents you?
: ALMOST, JUST, ONLY, SE, QUANDO...

Saturday, 6 March 2010

Ela beijou a mae na boca depois de um dia dificil. Riso facil, mas sabe la Deus o que ia ali, dentro daqueles olhos de india. Todo mundo lhe dizendo que ela era bonita, e tudo que queria era nao estar ali. (Alguem esqueceu de perguntar o que queria). Senti pena por tudo que ela ia deixar pra tras. Um historia tao bonita, reescrita agora com palavras em outro tom. Ela, todo dia, traduzida aos poucos. Sera que algum dia vai de novo catar mexerica do pe?
Todo mundo e minoria.

Saturday, 27 February 2010

I got this puzzled look since I've decided not to take anything for granted. Bad choice, I know, but I am afraid there is no way back. Not to worry: I still know how to play your game. So well, sometimes I think I am the ruler. But no, I just pretend I don't mind whilst keeping myself busy  (with those small important things of life). In fact, I just try anything. Hoping. It. Will. Do.

Monday, 8 February 2010

...e se me escondo atrás das palavras é por causa do teu medo de mim.

Sunday, 7 February 2010

Descartou todas as explicações de forma que lhe bastasse esticar o braço para de novo alcançá-las com segurança. Vestiu-se das sobras e caminhou em direção a um pedaço do espaço que não conhecia ainda o toque. No caminho, se alimentou de versos sem sentido, dando passos fora. De mãos dadas com o tempo, percebeu intrigada que não reconhecia a própria língua e viu no chão a frente pegadas suas de longa data. Os olhos buscavam em vão cumplicidade nos rostos alheios e ocupados. Nas mãos cansadas, o dedo apontou trêmulo, num ponto qualquer, a superfície amarelada da cartilha.