Corro risco quando escrevo porque não posso desdizer as coisas e fingir que não era bem isso, nem resgatar as palavras que um dia me carregaram nua, pra receber de volta um pacote bem educado de respostas de qualquer um. Aqui tenho tempo, e posso, livre. Não me preocupam os esboços de gestos, nem meus sorrisos de todo dia, costurados com silêncio. Não me preocupa a pobre sintonia do meu pensamento com meu corpo, da qual resultam caricaturas tristes, choro que se engole com dor disfarçada na lisura da face. Sem visitas, eu passeio pelo espaço dedilhando meus mais puros non senses. Espero.
Wednesday, 30 September 2009
Thursday, 24 September 2009
Sunday, 20 September 2009
um sonho
No inicio havia rostos conhecidos e felizes. Eu tentava agarrar o momento através de uma fotografia que parecia não dar certo, ora porque perdia o foco, ora porque não conseguia o enquadramento ideal. Depois havia uma rocha grande a uma boa distancia, encostada no mar, e algumas varias pessoas nela. Eram crianças e pessoas mais velhas, adultos. Todos pareciam ter a pele escura, mais para dizer que eram povos antigos e primeiros do que pra serem negros. Todos riam muito,felizes, e parecia que o fato de estarem ali, naquela rocha, era que os fazia serem o que eram. Carregavam nos sorrisos um orgulho estranho. Eles cresciam em números de tal modo que, por um momento, pela lente da camera, tive a sensação de ver um aglomerado de formigas correndo muito atarantadas em todas as direcoes, batendo cabeças e se fundindo num mar de pinche. A cena se desenrolava, assim, hipnótica, o mar fazendo-se e desfazendo-se ritmicamente, ora e outra voltando as formigas a serem gente e crianças, num fogo agitado, de dentes brancos e arreganhados a sua graça própria. Eu desesperadamente buscava, com minha camera na mão, o melhor ângulo. Mistura de asco e encanto. Mas o fato eh que havia movimento demais, sem contar o barco que passou bem em frente da rocha, logo na hora da foto, e o vai e vem de pessoas andando na costa que me atrapalhavam a visão, sem me perceber ali. E quando finalmente parecia ter conseguido a imagem perfeita, o mar se abria de novo transbordando o enquadramento da minha lente, parecendo que a rocha aumentara, e com ela todos que estavam ali, em numero. O sentimento de frustracao logo dera lugar ao Extase. O que queria era ver com todos meus sentidos a postos e de modo cru, aquele acontecimento largo. Quando o horizonte se abria assim, pra mim, não havia qualquer espécie de impasse. Meu corpo era pura calmaria, muito certo de que estar ali era fundamento e era essência, mais forte que qualquer tentativa de revelação a quem, por circunstancia de tempo, de espaço, de língua ou estado de espírito, não pudesse, comigo, vivenciar. De repente um estrondo. A rocha lentamente parecia mudar de cor, como se desde sempre tivesse sido translúcida e, de dentro, alguma coisa de luz rosa começara a brilhar. Pessoas pulavam la de cima no mar de agua, algumas desesperadas, outras apenas prevendo o pior. Sem se importar com os outros que ainda ali esperavam por algum tipo de explicação, a rocha se partiu e dela jorrou um liquido em brasa, cor de fogo, fazendo um rastro em direcao ao mar e levando consigo o que estava no caminho. Senti uma onda de hálito quente, com gosto de castigo ou vingança, e triunfo. Fascinada, reassumi minha função que agora era documental, semelhante a de um fotografo que presencia desgraças e quer dividir seu horror com o mundo. Eu não sabia para onde direcionar a lente da camera e tirava fotos desesperadamente de todas as coisas. O tempo que eu tinha era pouco para, por exemplo, registrar a expressão sem nome daquele homem antes de correr pra pular no mar, e a daquela criança que, com surpreendente bravura, quebrava, com um martelo, pedaços da rocha do chão, pra que as outras três ali encurraladas pudessem sair. E a lava que desmanchava os corpos, e os outros que já haviam mesmo antes dela, se entorpecido de susto, caindo no mar inertes. Por mais que se pudesse juntar todas aquelas fotos, como se montasse, assim, um quebra cabeça, eu sabia, não daria conta daquele momento. Mas eu continuava tirando fotos partidas, com uma espécie de teimosia ingénua, exatamente da mesma forma que continuo, sem saber quem me confiou essa camera, postando aqui esses textos, na esperança que já nasce frustrada de deitar na palma da mão uma lasca de alguma coisa que se pareça com a EXPERIÊNCIA. Os jornais anunciavam a tragédia e o tom das noticias dava a entender que já era sabido, desde há muito tempo, que isso iria acontecer. E mesmo assim eles riam, atemporais. Mesmo assim, havia crianças. E não se sabe se tinham outra escolha. O fato eh que eles eram felizes ali. O fato e que eu também insisto, sabendo que de onde olho, já sinto o calor no suor que enxugo da minha testa.
Monday, 14 September 2009
X os sub...

Já posso contar anos desde a ultima vez que escrevi um texto do tipo cronica porque acho que desaprendi a falar de coisas miúdas. E que meu olhar tem tido pressa e no final, la vou eu colocando tudo (que vejo, sinto, reflito sobre...) num mesmo e imenso saco. Andei vivendo, eh isso. Mal e porcamente, eu sei, mas o fato, confesso pra fins de catarse, e que estive mais ligada as coisas que se faz e menos aquelas que se pensa,com propriedade, digo. Pra completar, estava cansada... não, com estafa, dessas minhas palavras de sempre, como se qualquer coisa que supostamente nova fosse,na verdade,um "remake" sem graça de outra já vivida, por uma quase mesma eu, com mudança de cenário e personagens, apenas.
O mais engraçado de tudo (pra mim) eh que a vontade deste texto nasceu de um sentimento ruim, coisa desses mal resolvidos assuntos de passado, coisas que nos colocam no nosso lugar (o de humanos), mostrando que ainda e sempre há muito chão depois da próxima esquina. Entendi que deixar de ver as miudezas eh olhar de modo medíocre, e eh esse lugar pequeno de onde muito mais fácil entendo essa tal de metafisica. Então hoje, no caminho pro trabalho, fui buscando nos gestos, nas janelas e no peculiar dos passos de cada pessoa, um motivo pra este texto, ou um motivo pra mim, se preferir. E eis que, embora tenha visto coisas muito bonitas, sobre as quais já se escreveram paginas e paginas de bons livros (ex: duas crianças - capacetes rosa - dentro de uma caixa azul, carregadas pelo pai na frente da bicicleta, lugar onde nos filmes se colocam cestos de flores!), no final das contas, o que me move, eu acabo de perceber, não e o olhar que eu empresto pras coisas, nem as palavras que eu vou escolher pra me misturar nelas. Percebe? Eu acho que o que eu tenho falado desde o inicio deste texto e disso: de sentir vontade. Pensando assim, me pergunto que momento foi esse que comecei a deixar a vontade se emudecer assim, de fininho, a ponto de eu esquecer a sua face essencial, e já lhe digo, foram tantos...Foi quando bateu no meu rosto ansioso por calor e luz, aquele sol frio e melancólico dessas tardes; foram as duas horas de todos os dias que passei ali, apagando no rastro molhado das tábuas do chão detalhes importantes de uma identidade; foi essa banheira, tão sem porque de tão besta, que esconde a firmeza do chão dos meus pés desastrados, essa comida em pó, em pratos muito mal prontos, o casaco no varal que não seca nunca, o cheiro ruim que vem sem o menor pudor, da cadeira ao lado, essa agua grossa de tão potável, e os ratos. Foi aquela palavra que eu não entendi (porque ela não foi dita pra isso), aquele nariz torcido que ganhei da pessoa que me veste com uma roupa tosca, que eu não sou; eh a cidade que não sabe da minha historia e pede desculpas tão civilizadamente que me corta o gesto puro e a ternura que se aprende nos trópicos; essa cidade, que me aceita por debaixo dos panos enquanto me rouba a existência, esta, que agora ganha ares aqui, mesmo com a minha enorme e flagrante limitação. E isso: escrever e uma forma de existir. Há de haver por ai, outras formas. E o que humildemente acho eh que e preciso olhar com calma e persistentemente, de forma a resgatar, de onde eh que seja, esse sentimento de vontade esvaecido por uma condição inventada pra nos e que, lembremos e façamos questão disso, esta muito, muito longe de condizer com o nosso tamanho real.
O mais engraçado de tudo (pra mim) eh que a vontade deste texto nasceu de um sentimento ruim, coisa desses mal resolvidos assuntos de passado, coisas que nos colocam no nosso lugar (o de humanos), mostrando que ainda e sempre há muito chão depois da próxima esquina. Entendi que deixar de ver as miudezas eh olhar de modo medíocre, e eh esse lugar pequeno de onde muito mais fácil entendo essa tal de metafisica. Então hoje, no caminho pro trabalho, fui buscando nos gestos, nas janelas e no peculiar dos passos de cada pessoa, um motivo pra este texto, ou um motivo pra mim, se preferir. E eis que, embora tenha visto coisas muito bonitas, sobre as quais já se escreveram paginas e paginas de bons livros (ex: duas crianças - capacetes rosa - dentro de uma caixa azul, carregadas pelo pai na frente da bicicleta, lugar onde nos filmes se colocam cestos de flores!), no final das contas, o que me move, eu acabo de perceber, não e o olhar que eu empresto pras coisas, nem as palavras que eu vou escolher pra me misturar nelas. Percebe? Eu acho que o que eu tenho falado desde o inicio deste texto e disso: de sentir vontade. Pensando assim, me pergunto que momento foi esse que comecei a deixar a vontade se emudecer assim, de fininho, a ponto de eu esquecer a sua face essencial, e já lhe digo, foram tantos...Foi quando bateu no meu rosto ansioso por calor e luz, aquele sol frio e melancólico dessas tardes; foram as duas horas de todos os dias que passei ali, apagando no rastro molhado das tábuas do chão detalhes importantes de uma identidade; foi essa banheira, tão sem porque de tão besta, que esconde a firmeza do chão dos meus pés desastrados, essa comida em pó, em pratos muito mal prontos, o casaco no varal que não seca nunca, o cheiro ruim que vem sem o menor pudor, da cadeira ao lado, essa agua grossa de tão potável, e os ratos. Foi aquela palavra que eu não entendi (porque ela não foi dita pra isso), aquele nariz torcido que ganhei da pessoa que me veste com uma roupa tosca, que eu não sou; eh a cidade que não sabe da minha historia e pede desculpas tão civilizadamente que me corta o gesto puro e a ternura que se aprende nos trópicos; essa cidade, que me aceita por debaixo dos panos enquanto me rouba a existência, esta, que agora ganha ares aqui, mesmo com a minha enorme e flagrante limitação. E isso: escrever e uma forma de existir. Há de haver por ai, outras formas. E o que humildemente acho eh que e preciso olhar com calma e persistentemente, de forma a resgatar, de onde eh que seja, esse sentimento de vontade esvaecido por uma condição inventada pra nos e que, lembremos e façamos questão disso, esta muito, muito longe de condizer com o nosso tamanho real.
Friday, 11 September 2009
segundo
O sobe e desce do peito. No rosto, sangue em brasa: epifania. Sonhos despencando de todos os lados. Nos braços caídos o peso desconcertante da ingenuidade (doi significar o que se diz e não se lida assim com palavras faz tempo, devia saber). Vontade de rasgar todas e devolver os gestos abruptos de outras horas. No caminho, a compania dos ecos e das sombras que desde longe sussurravam, pacientes, que a palavra que espera só vai ter da tua boca.
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