Monday, 26 September 2011

Cegueira

O cabelo branco, o olhar do homem, e aquela voz agoniada. Bebado.
Ela xingava com impaciencia; via-se logo que aquela cena ja se repetira por vezes. O homem choramingava e o resmungo dela vinha seco, cortando os seus lamurios, como pra desmerecer qualquer que fosse a dor que dizia ele estar sentindo, pra justificar o estado em que estava. Se encostava na mureta, procurando posicao, em tempo de cair pra um ou outro lado. O tecido sobrava na magreza do corpo, dancando forte com o vento da tarde. As muitas linhas do rosto se ajuntavam todas, de pura contrariedade.  Continuava choramingando, parecendo ora e outra que lamentava tambem a ignorancia da filha. Olhava pra ela e balancava a cabeca, em sinal negativo, em sinal de piedade. Ela, por sua vez, continuava estendendo a roupa no varal, lancando olhadelas para o pai, de rabo de olho. De vez em quando demorava nele um pouquinho mais, como se duvidasse de sua embriaguez, tao certo parecia ele de sua dor.

- Le isso ai, pai! Chegou pro senhor!
- Nao consigo, filha. Eu nao consigo!
- Tambem...
(...com essa bebedeira...) concluiu em pensamento.
- Ah filha, se minha cegueira fosse essa...tava bom, filha. Tava bom...

O homem chegava o papel na altura do nariz, esticando a folha amarela pra controlar a tremura. Apertava os olhos, tentando desembaralhar as letras pra formar uma palavra que fosse. A cada tentativa, uma lamuria.

- Ai filha...

Continuava, uma, duas, tres vezes, pra depois choramingar mais um pouco. Leu uma ou duas palavras e saiu, resmungando

- Se fosse so essa cegueira, tava bom. So essa, tava bom, filha...

Ficou olhando o andar cambaleante do pai e ouvindo seus lamurios ja mais distantes. Alguma coisa lhe apertava forte o estomago, fazendo quase lhe minar agua nos olhos. Prometeu pra si ler a carta pro pobre homem mais tarde. Ligeira, cortou logo o pensamento com um novo muxoxo. Nao, ela nao sabia do que ele estava falando. Procurou, no desleixo de calcas do pai, na sujeira de seus pes, no cheiro acre que saia de seu corpo, mais um motivo de reprovacao.

- Eu nao sei do que ele esta falando.

Repetiu, agora em voz alta. A cabeca, baixa.

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