No inicio havia rostos conhecidos e felizes. Eu tentava agarrar o momento através de uma fotografia que parecia não dar certo, ora porque perdia o foco, ora porque não conseguia o enquadramento ideal. Depois havia uma rocha grande a uma boa distancia, encostada no mar, e algumas varias pessoas nela. Eram crianças e pessoas mais velhas, adultos. Todos pareciam ter a pele escura, mais para dizer que eram povos antigos e primeiros do que pra serem negros. Todos riam muito,felizes, e parecia que o fato de estarem ali, naquela rocha, era que os fazia serem o que eram. Carregavam nos sorrisos um orgulho estranho. Eles cresciam em números de tal modo que, por um momento, pela lente da camera, tive a sensação de ver um aglomerado de formigas correndo muito atarantadas em todas as direcoes, batendo cabeças e se fundindo num mar de pinche. A cena se desenrolava, assim, hipnótica, o mar fazendo-se e desfazendo-se ritmicamente, ora e outra voltando as formigas a serem gente e crianças, num fogo agitado, de dentes brancos e arreganhados a sua graça própria. Eu desesperadamente buscava, com minha camera na mão, o melhor ângulo. Mistura de asco e encanto. Mas o fato eh que havia movimento demais, sem contar o barco que passou bem em frente da rocha, logo na hora da foto, e o vai e vem de pessoas andando na costa que me atrapalhavam a visão, sem me perceber ali. E quando finalmente parecia ter conseguido a imagem perfeita, o mar se abria de novo transbordando o enquadramento da minha lente, parecendo que a rocha aumentara, e com ela todos que estavam ali, em numero. O sentimento de frustracao logo dera lugar ao Extase. O que queria era ver com todos meus sentidos a postos e de modo cru, aquele acontecimento largo. Quando o horizonte se abria assim, pra mim, não havia qualquer espécie de impasse. Meu corpo era pura calmaria, muito certo de que estar ali era fundamento e era essência, mais forte que qualquer tentativa de revelação a quem, por circunstancia de tempo, de espaço, de língua ou estado de espírito, não pudesse, comigo, vivenciar. De repente um estrondo. A rocha lentamente parecia mudar de cor, como se desde sempre tivesse sido translúcida e, de dentro, alguma coisa de luz rosa começara a brilhar. Pessoas pulavam la de cima no mar de agua, algumas desesperadas, outras apenas prevendo o pior. Sem se importar com os outros que ainda ali esperavam por algum tipo de explicação, a rocha se partiu e dela jorrou um liquido em brasa, cor de fogo, fazendo um rastro em direcao ao mar e levando consigo o que estava no caminho. Senti uma onda de hálito quente, com gosto de castigo ou vingança, e triunfo. Fascinada, reassumi minha função que agora era documental, semelhante a de um fotografo que presencia desgraças e quer dividir seu horror com o mundo. Eu não sabia para onde direcionar a lente da camera e tirava fotos desesperadamente de todas as coisas. O tempo que eu tinha era pouco para, por exemplo, registrar a expressão sem nome daquele homem antes de correr pra pular no mar, e a daquela criança que, com surpreendente bravura, quebrava, com um martelo, pedaços da rocha do chão, pra que as outras três ali encurraladas pudessem sair. E a lava que desmanchava os corpos, e os outros que já haviam mesmo antes dela, se entorpecido de susto, caindo no mar inertes. Por mais que se pudesse juntar todas aquelas fotos, como se montasse, assim, um quebra cabeça, eu sabia, não daria conta daquele momento. Mas eu continuava tirando fotos partidas, com uma espécie de teimosia ingénua, exatamente da mesma forma que continuo, sem saber quem me confiou essa camera, postando aqui esses textos, na esperança que já nasce frustrada de deitar na palma da mão uma lasca de alguma coisa que se pareça com a EXPERIÊNCIA. Os jornais anunciavam a tragédia e o tom das noticias dava a entender que já era sabido, desde há muito tempo, que isso iria acontecer. E mesmo assim eles riam, atemporais. Mesmo assim, havia crianças. E não se sabe se tinham outra escolha. O fato eh que eles eram felizes ali. O fato e que eu também insisto, sabendo que de onde olho, já sinto o calor no suor que enxugo da minha testa.
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